ENTREVISTA ANTON CORBIJN

(Março de 2008, por telefone para Anderson Vitorino/Daylight Films)

Quais razões pessoais o levaram a escolher Ian Curtis e a banda Joy Division como objetos do seu filme?

Na verdade o Joy Division não é um tema do meu filme, Ian Curtis sim. “Control” não é um filme sobre o Joy Division – isso tem que ficar bem claro. É uma história de amor sobre Ian Curtis, que veio a se tornar o vocalista da banda. O Joy Division faz parte da história, mas não é A história.

Eu me mudei da Holanda para a Inglaterra em 1979 porque ouvi as músicas do Joy Division e me encontrei e conversei com eles em Londres algumas vezes. Mais ou menos um ano depois, Ian Curtis morreu. Fiz um vídeo para a banda nos anos seguintes. Tudo isso voltou a mexer comigo, porque, de certa maneira, Ian Curtis mudou a minha vida. E talvez porque Ian cometeu suicídio, as fotos que eu tirei dele se tornaram muito conhecidas.

Eu ainda me sinto muito ligado a tudo que aconteceu. Na minha idade, eu estava com 50 anos quando comecei a fazer o filme, parece ser o momento apropriado para olhar para trás e depois para frente de novo. Então eu olhei para trás para saber o que estava fazendo da minha vida e descobri que ainda estava buscando por influências da minha adolescência. Foi o momento de parar com essa influência antiga e me abrir para novas. Logo, o filme é um adeus, é o último capítulo de toda aquela parte da minha vida. Foi muito importante fazer um filme que lida com isso e ao mesmo tempo é um novo capítulo para mim.

Que tipo de contato pessoal/profissional você teve com a banda?

Eu era jovem e queria fotografar pessoas que eu gostava. Então fui para Londres e me encontrei com a banda. Fizemos uma sessão de fotos que acabou ficando bastante famosa e significativa com o tempo, mas quando ficou pronta quase ninguém gostou. Essa foi a minha ligação direta com o Joy Division.

Em abril de 1980 eles me convidaram para ir até Manchester e fizemos novas fotos. Havia a sensação de que minhas fotografias combinavam muito com as músicas da banda e eu fui convidado também para fazer o videoclipe da música “Atmosphere” em 1988.

Por que escolheu o livro biográfico de Deborah Curtis (“Touching from a Distance”) para ser base do filme?

Os produtores adquiriram os direitos para transformar a história do livro de Debbie (viúva de Ian Curtis) em filme e me contrataram. Mas “Control” não é uma adaptação do livro, apesar dele ter servido como grande fonte de informação. Vários detalhes que estão no livro poderiam ser usados no filme, mas é claro que Debbie tem uma forma muito pessoal de ver os fatos por causa da situação em que estava envolvida e eu não queria fazer um filme sobre isso.

Então eu quis falar com Annik (jornalista belga que se tornou amante de Ian Curtis), com (o produtor e apresentador) Tony Wilson, com os integrantes do New Order, com a mãe de Ian, para saber qual é a história deles, de cada um. Porque em muitos momentos da vida de Ian, Debbie não estava presente e o filme é uma combinação de todas essas informações. E é claro que o livro de Debbie é parte disso.

Como foi a escolha e a preparação do elenco?

Foi tudo mais ou menos como em qualquer outro filme. Os atores estudam suas falas e tentam encontrar a melhor maneira de interpretar seus personagens. E como havia música envolvida eu pedi que eles aprendessem um pouco dos instrumentos e eles ficaram muito entusiasmados com isso. Eles não conseguiam parar de ensaiar e se tornaram tão bons que decidimos usa-los também como músicos no filme. Não tínhamos idéia que isso fosse acontecer, mas aconteceu e eles deixaram o filme ainda mais forte. No filme, os atores estão sempre tocando e cantando de verdade.

Sam Riley (ator inglês que interpreta Ian Curtis) foi contratado em janeiro (2006) e as filmagens começaram apenas em julho, portanto ele teve tempo para aprender movimentos, passos. Os ensaios para o filme começaram oficialmente em maio.

Control” é em preto-e-branco, assim como vários videoclipes que você dirigiu. Por que?

Eu gosto da fotografia monocromática, mas a principal razão do filme ser em preto e branco é por ser esse o meio de expressão perfeito para o assunto tratado. Além disso, a memória coletiva sobre Joy Division e sobre o período (passagem dos anos 70 para os 80) e as fotografias que fiz da banda são em preto e branco. E é impossível encontrar uma foto colorida de Ian Curtis aonde quer que você vá.

Você dirigiu videoclipes de grandes bandas de rock, fotografou diversas celebridades da música e do cinema e agora ingressou na direção cinematográfica. A sua carreira parece ser um cruzamento bem sucedido de diversas artes audiovisuais. Você concorda?

Quando eu era mais jovem, queria fazer parte do mundo da música. Nos anos 80 tudo o que eu fiz foi relacionado à música. Nos anos 90 e atualmente, eu fotografo pessoas não só ligadas à música, como diretores de cinema (Clint Eastwood), atores (De Niro), Nelson Mandela, William Burroughs, Frank Sinatra – muitas pessoas que eu queria conhecer. A música me abriu muitas portas e por isso foi tão importante pra mim, além de ser uma grande inspiração.

O Joy Division voltou a chamar a atenção da grande mídia no último ano (2007). Há o seu filme, também um documentário sobre a banda (“Joy Division”, de Grant Gee), livros e edições especiais dos álbuns. Em sua opinião a que se deve esse novo interesse?

Para mim, o filme (“Control”) foi catalisador dos lançamentos que você mencionou. Acredito que se não existisse o filme nada disso teria sido lançado ou relançado.

A banda ainda é uma referência?

Sim. Muitas bandas são influenciadas por Joy Division: Franz Ferdinand, Interpol, Arcade Fire, The Editors, The Killers. Inclusive o The Killers (banda de rock dos EUA) gravou uma música para a trilha sonora de “Control” – “Shadowplay”, cover da faixa de 1979 do joy Division. Isso mostra como a banda ainda é relevante para os jovens hoje.

A maior parte das cinebiografias tende a glorificar seus personagens e transforma a vida de cada um em algo extraordinário. Você parece fugir desse esquema. Você concorda?

Sim. “Control” não quer ser uma biografia. É um filme sobre pessoas, não sobre deuses ou estrelas do rock. É algo mais humano. E a vida não é como na revista “Hello” (publicação internacional equivalente à nacional “Caras”). As pessoas têm questões a resolver e enfrentar todos os dias.


Escrito por Anderson Vitorino às 12h01



4 de novembro de 2010

 

Queria que fosse 4 de novembro de 2013

só pra ser três anos e não três meses.

Queria que pelo menos hoje seu dia fosse perfeito

e que você não ficasse triste nem por um segundo.

Queria estar deitado aí do seu lado agora

e ver você dormindo.

Queria que você me pedisse pra segurar sua mão

como naquela noite em que dormimos assim.

Queria que cada vez que a gente discutisse

fôssemos “condenados” a mais um ano juntos.

Queria poder sentir seu cheiro

sempre que a saudade apertasse o peito.

Queria me teletransportar só pra te abraçar

e te apertar nas noites frias e tristes.

Queria zerar todos os jogos de todos os videogames

do mundo (mas bem lentamente, pra nunca acabar).

Queria latir e uivar com você em público.

Queria tirar foto pelado com você

à beira do rio no Ibirapuera.

Ah, claro, queria jogar Mário kart de cueca

ouvindo Arcade Fire.

Queria que o passado nunca virasse um fantasma.

Queria ver filmes de terror

em todas as noites de Halloween.

Queria viajar de carro sem destino

por dias e dias só com você.

Acho que eu queria muita coisa, ou não.

Por enquanto, quero mesmo é ir vivendo

dia após dia com você e

te conhecendo mais e mais e

te amando mais e mais.

Auuuuuu... (Uivo.)


Escrito por Anderson Vitorino às 00h31



O Marceneiro - de Anderson Vitorino


Após a morte de sua mãe, garota se aproxima do jovem marceneiro da cidade. Eles começam um namoro que é atrapalhado por um estranho pedido da menina.

Ficha Técnica
texto: Anderson Vitorino
direção: Zé Henrique de Paula
elenco: Bruna Thedy e Herbert Bianchi
direção de fotografia: Nelson Kao


Escrito por Anderson Vitorino às 00h17



Usufruto - Atriz estreia como dramaturga

Em mais de 25 anos de profissão, a atriz Lúcia Veríssimo já fez novelas, peças de teatro, filmes e, como ela diz, tem duas capas de playboy (fez ensaios de nu em duas ocasiões para a revista masculina). Afastada da televisão desde 2005, a atriz faz sua estreia como dramaturga com Usufruto, sob a direção de José Possi Neto.

O talento para a escrita pode ser percebido na premissa da peça: mulher de 50 anos (Lúcia Veríssimo) disputa a compra de um apartamento com homem de 30 anos (Raphael Viana). Sendo a dramaturgia essencialmente um embate, Lúcia fez uma escolha muito eficiente ao optar por transformar o jogo teatral na base estrutural desse seu primeiro texto. Sexo, casamento aberto e liberdade individual são alguns dos temas abordados.

Caixas de mudança preenchem a sala do apartamento vazio, palco do debate que decidirá o novo proprietário do imóvel. O cenário bonito e funcional conta ainda com uma janela com vista para a praia, na forma de um enorme painel. Aqui cabe comentar o som do mar que pontua alguns momentos mais intensos e reflexivos do espetáculo. A trilha sonora é mínima e, além das ondas que podem ser ouvidas em momentos de silêncio dos personagens, breves interrupções sonoras fazem as vezes de elipses temporais.

Durante 75 minutos, homem e mulher tentam convencer um ao outro porque merecem comprar o belo imóvel. Para isso, a personagem feminina, principalmente, lança mão de artimanhas, como servir muito vinho ao rapaz e usar seu corpo para seduzi-lo e aqui, talvez, resida a fraqueza do espetáculo. A exuberância dessa mulher de 50 anos parece servir muito mais ao ego da atriz do que à disputa em cena. Talvez um erro de dosagem da direção, embora a tentativa de reviravolta no fim aponte mais para uma deficiência do próprio texto.


Escrito por Anderson Vitorino às 11h37



Um herói que pouco importa

 

Por Anderson Vitorino

22/10/2009

 

O início desse filme canadense, baseado em best-seller, aponta no caminho do suspense, já que não explica a primeira cena e embarca logo numa volta no tempo. Em vários outros momentos, o filme lança essa pista falsa, de que embarcaremos num possível thriller. Porém, O Cronometrista quer mesmo é explorar a experiência transformadora por qual passa seu protagonista, Martin Bishop (Craig Olejnik), jovem órfão que é levado a um acampamento para desenvolver a função de cronometrista.

 

Essa espécie de jornada do herói em que é lançado o jovem poderia mesmo ser o principal ponto de interesse do filme, mas nem isso consegue manter o interesse real do espectador. Martin Bishop é um garoto bonito e bem vestido que destoa de todos os outros trabalhadores, responsáveis pela construção de uma ferrovia no meio de uma floresta. Protagonista e antagonistas são estabelecidos da forma mais rasteira e esquemática possível.

 

Além disso, o “herói”, apesar da beleza física, não desperta nenhuma compaixão real no espectador, o que torna difícil a preocupação com ele frente às dificuldades que ele terá que encarar. Fora que o ator se mantém limpo e barbeado durante toda sua “jornada” nesse ambiente hostil e sujo. O desfecho é igualmente inverossímil e nem mesmo as músicas de Johnny Cash e Neil Young salvam o filme do fracasso. O difícil também é entender o motivo desse título fazer parte da programação da Mostra internacional.

 

O Cronometrista (The Timekeeper)

Canadá, 2009. 102 min

Direção: Louis Bélanger

Com: Roy Dupuis, Craig Olejnik, Julian Richings, Gary Farmer


Escrito por Anderson Vitorino às 23h41



Era mesmo pra rir?

 

Por Anderson Vitorino

22/10/2009

 

O jovem diretor egípcio Marwan Hamed, nascido em 1977, dirigiu curtas-metragens e comerciais antes de estrear com o longa O Edifício Yacoubian em 2006 (Prêmio do Júri de melhor ator para Adel Iman na 30ª Mostra), premiado como melhor primeiro filme nos festivais de Tribeca, Nova York e Montreal. Hamed está de volta à Mostra com o filme Ibrahim Labyad, que segundo a sinopse, é baseado em uma história real.

 

Aparentemente, o objetivo era fazer um filme com apelo comercial e mais acessível (digo isso sem ser pejorativo), mas nem assim consigo gostar dele. A história tenta dar conta da vida de um homem – o Ibrahim do título – que, quando criança, teve o pai assassinado na sua frente. Isso, claro, vai ser de certa forma a justificativa para a entrada do personagem no mundo violento das gangues das ruas do Cairo.

 

Para agradar todo o tipo de público possível, o diretor tenta inserir momentos de tudo quanto é gênero cinematográfico. Há romance (ajudado pelo destino), aventura (com cenas de lutas risíveis), drama (ou dramalhão, por causa da interpretação exagerada) e comédia, claro. Aliás, esse é um dos pontos negativos que vi no filme. Ele faz rir quando, aparentemente, deveríamos sentir medo, tensão ou compaixão.

 

É certo que já em O Edifício Yacoubian o estilo do diretor apontava na direção do tom novelesco, mas aqui o roteiro falha na criação de cenas dramáticas, talvez por não explorar mais a concepção do protagonista Ibrahim. E por fim, nada justifica as mais de duas horas de filme.

 

Ibrahim Labyad

Egito, 2009. 135 min

Direção: Marwan Hamed

Com: Ahmed El Sakka, Mahmoud Abdel Aziz, Hind Sabri, Amro Waked


Escrito por Anderson Vitorino às 23h40



Ken Loach dá aula de direção

 

Por Anderson Vitorino

22/10/2009

 

É sempre um prazer ver os filmes do inglês Ken Loach (1963), até mesmo quando ele emprega toda sua técnica para mais defender uma idéia do que fazer um filme. Em À Procura de Eric, motivado por sua paixão pelo futebol, Loach faz uma ótima comédia dramática, no melhor estilo inglês. Para isso ele contou com ótimos atores, um roteiro nunca previsível e o charme e a espontaneidade do mítico jogador de futebol francês Eric Cantona, que defendeu o Manchester United nos anos 90.

 

Em suma, o filme trata da vida do carteiro Eric (interpretado pelo ótimo ator Steve Evets) que está se afundando numa depressão por não saber como lidar com o passado e nem com os filhos adolescentes. Os amigos tentam ajudá-lo, mas é só a partir de um baseado que as coisas começam a clarear. O grande ídolo de Eric, o carteiro, é quem vai realmente contribuir para a virada de sua vida. Entra em cena Eric Cantona, como ele mesmo. O charmoso jogador francês não decepciona e usa sua espontaneidade e citações para emprestar humor ao filme.

 

O mais admirável em À Procura de Eric, além da humanidade e sensibilidade com que todos os personagens são tratados, é o ritmo imposto pela direção. Ken Loach faz rir e logo depois já segura o riso para dar lugar à tensão, emociona e depois volta ao riso agradável. Aos 73 anos o diretor se mostra extremamente jovem e contemporâneo ao incluir temas atuais e fatos polêmicos em seu filme sem fazer estardalhaço ou discurso.

 

À Procura de Eric (Looking for Eric)

Inglaterra/França, 2009. 116 min

Direção: Ken Loach

Com: Steve Evets, Eric Cantona, Stephanie Bishop, Lucy-Jo Hudson, Gerard Kearns, Stefan Gumbs


Escrito por Anderson Vitorino às 17h10



Preparem-se... Vai começar tudo outra vez!


Escrito por Anderson Vitorino às 16h32



Começar a semana com uma música nova do Radiohead só pode ser um bom sinal. Já ouvi "These are my twisted words" várias vezes e quando o vocal de Thom Yorke entra, com mais de 2 minutos de música, ainda me assusto. Parece que a música, cujo título fala em palavras perturbadas, vai ser instrumental até que a voz de Yorke irrompe. A falta de alguém pode ser algo irreparável. Ouça!

THESE ARE MY TWISTED WORDS (Radiohead)

These are my twisted words
When I feel you still walking
I know I should not look down
But I’m so sick of just talking

When are you coming back?
I just can’t handle it
When are you coming back?
I just can’t handle it

When are you coming back?
I just can’t stand it
I just can’t handle it

Download: http://www.waste.uk.com/Store/waste-radiohead-twisted+words.html


Escrito por Anderson Vitorino às 12h39



Tenho vontade de deitar ao seu lado

sem pressa

deixar o tempo correr

sem pensar

olhar nos seus olhos

imaginar o que vai na sua cabeça

enrolar meus dedos no seu cabelo

esperando você se deixar

falar e calar

sem temer.

 

Vontade de ouvir o silêncio com você

o som abafado da TV do vizinho

um carro na rua.

 

Você pode ouvir meu coração

contar seus sonhos e me fazer rir

abraçar meu abraço

esquentar minhas mãos

dormir na minha cama.

 

Tenho muitas vontades de você.

 

(Anderson Vitorino, 24 de julho de 2009)


Escrito por Anderson Vitorino às 18h52



De volta às aldeotas

 

Ela entrou na sala do psicólogo, como havia feito em praticamente todas as quintas-feiras dos últimos 3 anos, e sentou-se. Antes mesmo de deixar que ele falasse qualquer coisa, foi logo pedindo: posso escrever? Hoje não quero falar. Geralmente, ele era resistente às resistências dela, mas fez um aceno com a cabeça. Ela pensou que ele também não queria falar. É melhor assim. Pegou as folhas que ficavam soltas em cima da mesa de centro da sala. A caneta, pegou uma sua mesmo, de dentro da bolsa vermelha favorita. Com a caneta em punho, parou e pensou. Também não sabia o que ia escrever. Nesse momento, o psicólogo olhava para a janela, de onde, por entre a persiana meio aberta, entrava o sol do fim da tarde. Ela começou a escrever.

 

“No sábado passado fui ao teatro. Vi a peça ‘Aldeotas’. É uma com o Caco Ciocler e aquele outro ator engraçado... Não lembro do nome dele agora, mas ele fez vários filmes. Ah! Era o Sem Chance do ‘Carandiru’. Adorei a peça! Quando entramos no teatro, os atores já estavam lá, fazendo uns exercícios – deve ser de preparação, ou aquecimento. São só os dois o tempo todo e eles vão contando as coisas da infância, e fazendo, ao mesmo tempo. Eles moravam numa cidade bem pequena do interior do nordeste, eu acho. Brincavam e aprontavam como crianças de qualquer lugar do mundo. Num certo momento até, o Sem Chance, entra num buraco de formigas e visita o centro da terra, risos. Pensei na Emília e em suas histórias malucas e divertidas. Bom, mas o problema é que esses dois amigos eram meio diferentes dos outros meninos da escola. Eles gostavam de literatura e um deles até escrevia poemas para o outro ler como crítico! O tempo vai passando e eles até publicam esses poemas numa espécie de jornal. Uma outra coisa que eu não entendi bem, é que parece que o outro, sem ser o Caco Ciocler, era meio gay. Quer dizer, o personagem do Caco Ciocler também, mas o outro mais. Tem até um beijo e algumas pessoas ficaram assustadas. Eu não. Porque eu acho normal, né? Mas acontece que eles resolvem fugir. Eles querem ir pra outra cidade, maior, com mais oportunidades. E acaba que só um vai. O poeta mesmo. O Caco Ciocler fica e é obrigado a casar com uma prima e a trabalhar na roça. Não sei bem porquê, mas essa peça me deixou encucada. Meu namorado depois falou que não deveria ter me levado ao teatro. Mas eu fiquei pensando que eu também já tive essa vontade de sair daqui, de São Paulo, eu quero dizer. Nem sei para onde eu iria, porque essa cidade já é uma das maiores do mundo. O negócio é que voltei a pensar nisso. Algumas amigas e amigos já tiveram que ir embora daqui. E eu às vezes penso se eu também não deveria ir, viajar, conhecer outros lugares. Sabe? Meu namorado já quis logo saber se eu não gostava mais dele, risos. E eu gosto, muito. E tem minha família, amigos, faculdade. Gosto de tudo. Mas mesmo assim, parece que falta algo. Ah! Gostei muito de uma coisa que o (LEMBREI!) Gero Camilo disse. Ele falou que já sabia como o mundo era. Ele só queria comprovar! Bom, acho que é isso. Por hoje.”

 

Ela parou de escrever e olhou para o psicólogo que olhava para ela. Levantou-se, entregou a folha para ele e despediu-se com um beijo no rosto. O homem ficou sentado e logo depois que a porta fechou atrás de si, começou a ler a “carta” de sua paciente. Ele sorriu com esse exercício alternativo de análise proposto por ela. O relato da ida ao teatro fez com que ele pensasse nas coisas e nas pessoas que ele mesmo abandonou, ou teve que abandonar, como sempre preferiu pensar. Há aproximadamente 15 anos, ele mesmo deixou sua aldeota para trás. Mal sabia o que era psicologia, nem quem era Freud e muito menos o que era behaviorismo. Sabia que era diferente e que precisava sair, fugir. Diferente do personagem da peça, ele não sabia como o mundo era. Ele tinha uma mala e muita coisa para aprender. Deixou na pequena cidade sua infância de brincadeiras inventivas, seu único amigo, sua mãe cuidadosa e o calado pai. Deixou para trás o aconchego da casa da vó, a esperança do irmão de que ele também fosse trabalhar na serraria. Mais do que tudo, ele abandonou naquele dia a obrigação de tentar ser alguém que ele não era. Lembrou-se da praça, da passagem de ida e do ônibus. Lembrou-se da família, como um retrato, vista pela janela – todos olhando para ele. Ainda estava sentado, pensando, quando percebeu que já estava tão escuro dentro da sala quanto lá fora. Logo a secretária bateu na porta e era hora de ir embora, de novo.

 

(A peça Aldeotas foi escrita por Gero Camilo e está em cartaz no Tucarena, em São Paulo, até 30/8.)


Escrito por Anderson Vitorino às 20h05



[Minicontos]

 

1.

No momento exato em que a lágrima rolou do olho até a boca dele, ela se arrependeu de todas as acusações feitas e chorou também. Fim da visita.

 

2.

A velha segurou no corrimão e começou a descer a escada. A mão gelada, os degraus como os anos vividos. Teve medo de não contar até o último.


Escrito por Anderson Vitorino às 23h24



Para aprender a usar o discurso indireto

Ela disse que não gostava do que eu escrevia. Eu disse que não me importava porque não escrevia mais para ela mesmo. Ela disse que eu estava sendo escroto. Eu disse que sempre fui e ela que não havia percebido antes porque estava apaixonada. Ela disse que nunca me amou e eu disse que nem sabia o que era isso. Eu disse para ela ir embora logo. Ela chorando disse que eu sabia que ela me amava e por isso fazia essas coisas com ela. Eu não disse mais nada. Eu também a amava. Ficamos em silêncio por um tempo. Ela parou de chorar. Estava cansada. Eu disse que também estava cansado de brigar. Ela continuou em silêncio. Depois disse que não queria brigar mais. E depois perguntou se eu a amava. Fiquei em silêncio. Ela perguntou para que servia o amor. Continuei em silêncio. Ela disse que eu deveria saber a resposta já que era escritor e escrevia sobre o amor. Eu disse que ela sabia que eu a amava. O gato, que não dizia nada, só abriu os olhos e olhou para nós dois. Depois voltou a dormir. Eu disse que não sabia como consertar as coisas. Depois disse que eu não sabia para que serve o amor. Nenhum escritor deve saber. Ninguém deve. Ela disse que estava cansada. Eu já sabia. Eu não disse, mas pensei que para escrever sobre o amor eu não precisava saber para que servia. Naquele momento eu só sabia que não tinha mais jeito. O gato acordou de novo, olhou para nós dois e saiu da sala.


Escrito por Anderson Vitorino às 01h27



Meu Diário

 

[Sexta-feira, 5 de junho]

 

12h - Muito legal entrar em cartaz o filme "De repente, Califórnia". Vi no Mix Brasil e gostei! Está no Unibanco do Frei Caneca (temático, né?).

 

12h03 - Outra estréia legal é o filme libanês "Caramelo". É uma espécie de comédia romântica árabe passada em Beirute. Indico o filme e o Cinesesc!

 

12h10 - Quero ver o filme japonês "A Partida". O crítico da Folha, Inácio Araújo, achou o filme ótimo e chamou a programação do ano de medíocre hehe

 

12h18 - Teatroficina: E na semana que vem, BACO será comemorado no Teat(r)o Oficina na festa "Pro Mundo Ficar Odara". + Infos em breve. Vamos?

 

12h46 - CorinthiansNews: Mano Menezes na lista dos melhores do mundo http://olha.biz/wj

 

16h55 - Interessante o abaixo-assinado que o Roger do Ultraje lançou, mas não vou assinar porque ainda não há candidato oficial para presidente e nem voto no Serra

 

17h02 - Hoje é o Dia Mundial do Meio Ambiente. Você sabia que trocar livros é uma ótima forma de preservar o meio ambiente? http://bit.ly/ZliA6

 

17h06 - O que estou fazendo? Ouvindo Feist e trabalhando.

 

19h01 - "Tanta coisa vai e você não vê que a insegurança é tudo que você deve aceitar / tentar ser melhor, que a vida é muito mais do que esquecer" (Vanguart)

 

21h55 - Eu sei que não é muito legal depositar nossa felicidade em outra pessoa, mas e daí? Surpresa muito, mas muito boa! Prévia do fim de semana?!

 

23h49 - Emocionado vendo "Imitação da Vida" do Douglas Sirk. Eu amo melodramas. #euconfesso

 

[Sábado, 6 de junho]

 

SUCESSO: Natural de Coimbra (Portugal), Aleixo é um "ewok" de 51 anos que fez plástica para ficar com cara de cachorro. http://bit.ly/HRszC

 

Agora eu amo o Bruno! Bruno: Como é que ficou o Palmeiras? Sr Jaca: Acho que o verdão perdeu. Bruno: Então estou ótimo! http://bit.ly/16xiJa

 

Dia de ouvir R.E.M.

 

A vida é triste, mas é melhor assim, porque quando há alguma alegria o momento é de alguma forma mágico. http://blip.fm/~7qtkh

 

Vou ver "A Partida" com os amigos Paulacferraz e Libarino :D

 

Queria ter esticado o sábado, mas blz, domingo taí! Gostei do filme "A Partida" e da peça "Aldeotas". Amei o Bistrô Blú em Perdizes e a cia!

 

[Domingo, 7 de junho]

 

Ouvindo Frank Sinatra! Escrevi no blog e daqui a pouco dormirei, feliz. Boa noite!

 

12h07 - Bom dia! Ouvindo Vanguart. Vou estudar sintaxe e trabalhar.


Escrito por Anderson Vitorino às 12h32



Voltou para casa, que embora fosse a mesma, já não era. Parecia ter encontrado a paz que buscava. Os olhos claros, o sorriso largo, que servia quase como uma proteção à timidez, um abrigo. Que encanto. E que enigma também. Havia algo de frágil naquele menino, mas ao mesmo tempo uma maturidade, cheia de disciplina e determinação. Impossível não se apaixonar. Um contraponto perfeito aos impulsos e ao sentimento desenfreado, quase incontrolável. E falaram, sorriram, riram, beberam, trocaram carícias discretas e algumas pequenas confissões. Ver o outro partindo no ônibus com a certeza da próxima vez enchia seu coração de esperança e paz. E isso era tudo que ele precisava para ser: esperança e paz.

 

(Não tenho compromisso com a verdade, nem com os fatos reais. Esse é um blog de ficção com traços autobiográficos. A foto foi tirada por mim.)


Escrito por Anderson Vitorino às 01h56



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Anderson Vitorino, 29, apaixonado por cinema, iniciou-se na dramaturgia aos 13 anos num curso de teatro. Desde lá, desenvolveu enorme fascínio pelas histórias e imagens. Estudou cinema e aprofunda-se em direção, escrita de roteiro e textos. Escreveu e dirigiu o curta-metragem Jurema, Te Amo!, 2003. Atualmente cursa Letras na USP e ensaia o seu primeiro espetáculo em São Paulo "Te espero na última plataforma".

Contato pelo e-mail:
andervitorino@gmail.com

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