Um herói que pouco importa

 

Por Anderson Vitorino

22/10/2009

 

O início desse filme canadense, baseado em best-seller, aponta no caminho do suspense, já que não explica a primeira cena e embarca logo numa volta no tempo. Em vários outros momentos, o filme lança essa pista falsa, de que embarcaremos num possível thriller. Porém, O Cronometrista quer mesmo é explorar a experiência transformadora por qual passa seu protagonista, Martin Bishop (Craig Olejnik), jovem órfão que é levado a um acampamento para desenvolver a função de cronometrista.

 

Essa espécie de jornada do herói em que é lançado o jovem poderia mesmo ser o principal ponto de interesse do filme, mas nem isso consegue manter o interesse real do espectador. Martin Bishop é um garoto bonito e bem vestido que destoa de todos os outros trabalhadores, responsáveis pela construção de uma ferrovia no meio de uma floresta. Protagonista e antagonistas são estabelecidos da forma mais rasteira e esquemática possível.

 

Além disso, o “herói”, apesar da beleza física, não desperta nenhuma compaixão real no espectador, o que torna difícil a preocupação com ele frente às dificuldades que ele terá que encarar. Fora que o ator se mantém limpo e barbeado durante toda sua “jornada” nesse ambiente hostil e sujo. O desfecho é igualmente inverossímil e nem mesmo as músicas de Johnny Cash e Neil Young salvam o filme do fracasso. O difícil também é entender o motivo desse título fazer parte da programação da Mostra internacional.

 

O Cronometrista (The Timekeeper)

Canadá, 2009. 102 min

Direção: Louis Bélanger

Com: Roy Dupuis, Craig Olejnik, Julian Richings, Gary Farmer


Escrito por Anderson Vitorino às 23h41



Era mesmo pra rir?

 

Por Anderson Vitorino

22/10/2009

 

O jovem diretor egípcio Marwan Hamed, nascido em 1977, dirigiu curtas-metragens e comerciais antes de estrear com o longa O Edifício Yacoubian em 2006 (Prêmio do Júri de melhor ator para Adel Iman na 30ª Mostra), premiado como melhor primeiro filme nos festivais de Tribeca, Nova York e Montreal. Hamed está de volta à Mostra com o filme Ibrahim Labyad, que segundo a sinopse, é baseado em uma história real.

 

Aparentemente, o objetivo era fazer um filme com apelo comercial e mais acessível (digo isso sem ser pejorativo), mas nem assim consigo gostar dele. A história tenta dar conta da vida de um homem – o Ibrahim do título – que, quando criança, teve o pai assassinado na sua frente. Isso, claro, vai ser de certa forma a justificativa para a entrada do personagem no mundo violento das gangues das ruas do Cairo.

 

Para agradar todo o tipo de público possível, o diretor tenta inserir momentos de tudo quanto é gênero cinematográfico. Há romance (ajudado pelo destino), aventura (com cenas de lutas risíveis), drama (ou dramalhão, por causa da interpretação exagerada) e comédia, claro. Aliás, esse é um dos pontos negativos que vi no filme. Ele faz rir quando, aparentemente, deveríamos sentir medo, tensão ou compaixão.

 

É certo que já em O Edifício Yacoubian o estilo do diretor apontava na direção do tom novelesco, mas aqui o roteiro falha na criação de cenas dramáticas, talvez por não explorar mais a concepção do protagonista Ibrahim. E por fim, nada justifica as mais de duas horas de filme.

 

Ibrahim Labyad

Egito, 2009. 135 min

Direção: Marwan Hamed

Com: Ahmed El Sakka, Mahmoud Abdel Aziz, Hind Sabri, Amro Waked


Escrito por Anderson Vitorino às 23h40



Ken Loach dá aula de direção

 

Por Anderson Vitorino

22/10/2009

 

É sempre um prazer ver os filmes do inglês Ken Loach (1963), até mesmo quando ele emprega toda sua técnica para mais defender uma idéia do que fazer um filme. Em À Procura de Eric, motivado por sua paixão pelo futebol, Loach faz uma ótima comédia dramática, no melhor estilo inglês. Para isso ele contou com ótimos atores, um roteiro nunca previsível e o charme e a espontaneidade do mítico jogador de futebol francês Eric Cantona, que defendeu o Manchester United nos anos 90.

 

Em suma, o filme trata da vida do carteiro Eric (interpretado pelo ótimo ator Steve Evets) que está se afundando numa depressão por não saber como lidar com o passado e nem com os filhos adolescentes. Os amigos tentam ajudá-lo, mas é só a partir de um baseado que as coisas começam a clarear. O grande ídolo de Eric, o carteiro, é quem vai realmente contribuir para a virada de sua vida. Entra em cena Eric Cantona, como ele mesmo. O charmoso jogador francês não decepciona e usa sua espontaneidade e citações para emprestar humor ao filme.

 

O mais admirável em À Procura de Eric, além da humanidade e sensibilidade com que todos os personagens são tratados, é o ritmo imposto pela direção. Ken Loach faz rir e logo depois já segura o riso para dar lugar à tensão, emociona e depois volta ao riso agradável. Aos 73 anos o diretor se mostra extremamente jovem e contemporâneo ao incluir temas atuais e fatos polêmicos em seu filme sem fazer estardalhaço ou discurso.

 

À Procura de Eric (Looking for Eric)

Inglaterra/França, 2009. 116 min

Direção: Ken Loach

Com: Steve Evets, Eric Cantona, Stephanie Bishop, Lucy-Jo Hudson, Gerard Kearns, Stefan Gumbs


Escrito por Anderson Vitorino às 17h10



Preparem-se... Vai começar tudo outra vez!


Escrito por Anderson Vitorino às 16h32



Começar a semana com uma música nova do Radiohead só pode ser um bom sinal. Já ouvi "These are my twisted words" várias vezes e quando o vocal de Thom Yorke entra, com mais de 2 minutos de música, ainda me assusto. Parece que a música, cujo título fala em palavras perturbadas, vai ser instrumental até que a voz de Yorke irrompe. A falta de alguém pode ser algo irreparável. Ouça!

THESE ARE MY TWISTED WORDS (Radiohead)

These are my twisted words
When I feel you still walking
I know I should not look down
But I’m so sick of just talking

When are you coming back?
I just can’t handle it
When are you coming back?
I just can’t handle it

When are you coming back?
I just can’t stand it
I just can’t handle it

Download: http://www.waste.uk.com/Store/waste-radiohead-twisted+words.html


Escrito por Anderson Vitorino às 12h39



Tenho vontade de deitar ao seu lado

sem pressa

deixar o tempo correr

sem pensar

olhar nos seus olhos

imaginar o que vai na sua cabeça

enrolar meus dedos no seu cabelo

esperando você se deixar

falar e calar

sem temer.

 

Vontade de ouvir o silêncio com você

o som abafado da TV do vizinho

um carro na rua.

 

Você pode ouvir meu coração

contar seus sonhos e me fazer rir

abraçar meu abraço

esquentar minhas mãos

dormir na minha cama.

 

Tenho muitas vontades de você.

 

(Anderson Vitorino, 24 de julho de 2009)


Escrito por Anderson Vitorino às 18h52



De volta às aldeotas

 

Ela entrou na sala do psicólogo, como havia feito em praticamente todas as quintas-feiras dos últimos 3 anos, e sentou-se. Antes mesmo de deixar que ele falasse qualquer coisa, foi logo pedindo: posso escrever? Hoje não quero falar. Geralmente, ele era resistente às resistências dela, mas fez um aceno com a cabeça. Ela pensou que ele também não queria falar. É melhor assim. Pegou as folhas que ficavam soltas em cima da mesa de centro da sala. A caneta, pegou uma sua mesmo, de dentro da bolsa vermelha favorita. Com a caneta em punho, parou e pensou. Também não sabia o que ia escrever. Nesse momento, o psicólogo olhava para a janela, de onde, por entre a persiana meio aberta, entrava o sol do fim da tarde. Ela começou a escrever.

 

“No sábado passado fui ao teatro. Vi a peça ‘Aldeotas’. É uma com o Caco Ciocler e aquele outro ator engraçado... Não lembro do nome dele agora, mas ele fez vários filmes. Ah! Era o Sem Chance do ‘Carandiru’. Adorei a peça! Quando entramos no teatro, os atores já estavam lá, fazendo uns exercícios – deve ser de preparação, ou aquecimento. São só os dois o tempo todo e eles vão contando as coisas da infância, e fazendo, ao mesmo tempo. Eles moravam numa cidade bem pequena do interior do nordeste, eu acho. Brincavam e aprontavam como crianças de qualquer lugar do mundo. Num certo momento até, o Sem Chance, entra num buraco de formigas e visita o centro da terra, risos. Pensei na Emília e em suas histórias malucas e divertidas. Bom, mas o problema é que esses dois amigos eram meio diferentes dos outros meninos da escola. Eles gostavam de literatura e um deles até escrevia poemas para o outro ler como crítico! O tempo vai passando e eles até publicam esses poemas numa espécie de jornal. Uma outra coisa que eu não entendi bem, é que parece que o outro, sem ser o Caco Ciocler, era meio gay. Quer dizer, o personagem do Caco Ciocler também, mas o outro mais. Tem até um beijo e algumas pessoas ficaram assustadas. Eu não. Porque eu acho normal, né? Mas acontece que eles resolvem fugir. Eles querem ir pra outra cidade, maior, com mais oportunidades. E acaba que só um vai. O poeta mesmo. O Caco Ciocler fica e é obrigado a casar com uma prima e a trabalhar na roça. Não sei bem porquê, mas essa peça me deixou encucada. Meu namorado depois falou que não deveria ter me levado ao teatro. Mas eu fiquei pensando que eu também já tive essa vontade de sair daqui, de São Paulo, eu quero dizer. Nem sei para onde eu iria, porque essa cidade já é uma das maiores do mundo. O negócio é que voltei a pensar nisso. Algumas amigas e amigos já tiveram que ir embora daqui. E eu às vezes penso se eu também não deveria ir, viajar, conhecer outros lugares. Sabe? Meu namorado já quis logo saber se eu não gostava mais dele, risos. E eu gosto, muito. E tem minha família, amigos, faculdade. Gosto de tudo. Mas mesmo assim, parece que falta algo. Ah! Gostei muito de uma coisa que o (LEMBREI!) Gero Camilo disse. Ele falou que já sabia como o mundo era. Ele só queria comprovar! Bom, acho que é isso. Por hoje.”

 

Ela parou de escrever e olhou para o psicólogo que olhava para ela. Levantou-se, entregou a folha para ele e despediu-se com um beijo no rosto. O homem ficou sentado e logo depois que a porta fechou atrás de si, começou a ler a “carta” de sua paciente. Ele sorriu com esse exercício alternativo de análise proposto por ela. O relato da ida ao teatro fez com que ele pensasse nas coisas e nas pessoas que ele mesmo abandonou, ou teve que abandonar, como sempre preferiu pensar. Há aproximadamente 15 anos, ele mesmo deixou sua aldeota para trás. Mal sabia o que era psicologia, nem quem era Freud e muito menos o que era behaviorismo. Sabia que era diferente e que precisava sair, fugir. Diferente do personagem da peça, ele não sabia como o mundo era. Ele tinha uma mala e muita coisa para aprender. Deixou na pequena cidade sua infância de brincadeiras inventivas, seu único amigo, sua mãe cuidadosa e o calado pai. Deixou para trás o aconchego da casa da vó, a esperança do irmão de que ele também fosse trabalhar na serraria. Mais do que tudo, ele abandonou naquele dia a obrigação de tentar ser alguém que ele não era. Lembrou-se da praça, da passagem de ida e do ônibus. Lembrou-se da família, como um retrato, vista pela janela – todos olhando para ele. Ainda estava sentado, pensando, quando percebeu que já estava tão escuro dentro da sala quanto lá fora. Logo a secretária bateu na porta e era hora de ir embora, de novo.

 

(A peça Aldeotas foi escrita por Gero Camilo e está em cartaz no Tucarena, em São Paulo, até 30/8.)


Escrito por Anderson Vitorino às 20h05



[Minicontos]

 

1.

No momento exato em que a lágrima rolou do olho até a boca dele, ela se arrependeu de todas as acusações feitas e chorou também. Fim da visita.

 

2.

A velha segurou no corrimão e começou a descer a escada. A mão gelada, os degraus como os anos vividos. Teve medo de não contar até o último.


Escrito por Anderson Vitorino às 23h24



Para aprender a usar o discurso indireto

Ela disse que não gostava do que eu escrevia. Eu disse que não me importava porque não escrevia mais para ela mesmo. Ela disse que eu estava sendo escroto. Eu disse que sempre fui e ela que não havia percebido antes porque estava apaixonada. Ela disse que nunca me amou e eu disse que nem sabia o que era isso. Eu disse para ela ir embora logo. Ela chorando disse que eu sabia que ela me amava e por isso fazia essas coisas com ela. Eu não disse mais nada. Eu também a amava. Ficamos em silêncio por um tempo. Ela parou de chorar. Estava cansada. Eu disse que também estava cansado de brigar. Ela continuou em silêncio. Depois disse que não queria brigar mais. E depois perguntou se eu a amava. Fiquei em silêncio. Ela perguntou para que servia o amor. Continuei em silêncio. Ela disse que eu deveria saber a resposta já que era escritor e escrevia sobre o amor. Eu disse que ela sabia que eu a amava. O gato, que não dizia nada, só abriu os olhos e olhou para nós dois. Depois voltou a dormir. Eu disse que não sabia como consertar as coisas. Depois disse que eu não sabia para que serve o amor. Nenhum escritor deve saber. Ninguém deve. Ela disse que estava cansada. Eu já sabia. Eu não disse, mas pensei que para escrever sobre o amor eu não precisava saber para que servia. Naquele momento eu só sabia que não tinha mais jeito. O gato acordou de novo, olhou para nós dois e saiu da sala.


Escrito por Anderson Vitorino às 01h27



Meu Diário

 

[Sexta-feira, 5 de junho]

 

12h - Muito legal entrar em cartaz o filme "De repente, Califórnia". Vi no Mix Brasil e gostei! Está no Unibanco do Frei Caneca (temático, né?).

 

12h03 - Outra estréia legal é o filme libanês "Caramelo". É uma espécie de comédia romântica árabe passada em Beirute. Indico o filme e o Cinesesc!

 

12h10 - Quero ver o filme japonês "A Partida". O crítico da Folha, Inácio Araújo, achou o filme ótimo e chamou a programação do ano de medíocre hehe

 

12h18 - Teatroficina: E na semana que vem, BACO será comemorado no Teat(r)o Oficina na festa "Pro Mundo Ficar Odara". + Infos em breve. Vamos?

 

12h46 - CorinthiansNews: Mano Menezes na lista dos melhores do mundo http://olha.biz/wj

 

16h55 - Interessante o abaixo-assinado que o Roger do Ultraje lançou, mas não vou assinar porque ainda não há candidato oficial para presidente e nem voto no Serra

 

17h02 - Hoje é o Dia Mundial do Meio Ambiente. Você sabia que trocar livros é uma ótima forma de preservar o meio ambiente? http://bit.ly/ZliA6

 

17h06 - O que estou fazendo? Ouvindo Feist e trabalhando.

 

19h01 - "Tanta coisa vai e você não vê que a insegurança é tudo que você deve aceitar / tentar ser melhor, que a vida é muito mais do que esquecer" (Vanguart)

 

21h55 - Eu sei que não é muito legal depositar nossa felicidade em outra pessoa, mas e daí? Surpresa muito, mas muito boa! Prévia do fim de semana?!

 

23h49 - Emocionado vendo "Imitação da Vida" do Douglas Sirk. Eu amo melodramas. #euconfesso

 

[Sábado, 6 de junho]

 

SUCESSO: Natural de Coimbra (Portugal), Aleixo é um "ewok" de 51 anos que fez plástica para ficar com cara de cachorro. http://bit.ly/HRszC

 

Agora eu amo o Bruno! Bruno: Como é que ficou o Palmeiras? Sr Jaca: Acho que o verdão perdeu. Bruno: Então estou ótimo! http://bit.ly/16xiJa

 

Dia de ouvir R.E.M.

 

A vida é triste, mas é melhor assim, porque quando há alguma alegria o momento é de alguma forma mágico. http://blip.fm/~7qtkh

 

Vou ver "A Partida" com os amigos Paulacferraz e Libarino :D

 

Queria ter esticado o sábado, mas blz, domingo taí! Gostei do filme "A Partida" e da peça "Aldeotas". Amei o Bistrô Blú em Perdizes e a cia!

 

[Domingo, 7 de junho]

 

Ouvindo Frank Sinatra! Escrevi no blog e daqui a pouco dormirei, feliz. Boa noite!

 

12h07 - Bom dia! Ouvindo Vanguart. Vou estudar sintaxe e trabalhar.


Escrito por Anderson Vitorino às 12h32



Voltou para casa, que embora fosse a mesma, já não era. Parecia ter encontrado a paz que buscava. Os olhos claros, o sorriso largo, que servia quase como uma proteção à timidez, um abrigo. Que encanto. E que enigma também. Havia algo de frágil naquele menino, mas ao mesmo tempo uma maturidade, cheia de disciplina e determinação. Impossível não se apaixonar. Um contraponto perfeito aos impulsos e ao sentimento desenfreado, quase incontrolável. E falaram, sorriram, riram, beberam, trocaram carícias discretas e algumas pequenas confissões. Ver o outro partindo no ônibus com a certeza da próxima vez enchia seu coração de esperança e paz. E isso era tudo que ele precisava para ser: esperança e paz.

 

(Não tenho compromisso com a verdade, nem com os fatos reais. Esse é um blog de ficção com traços autobiográficos. A foto foi tirada por mim.)


Escrito por Anderson Vitorino às 01h56



A Vida Dela

 

Ela estava deprimida. Não tinha mais nada a descobrir. Depressão. E ninguém percebia? Por quê? Será que ela teria que falar olá estou deprimida e preciso de ajuda? Isso seria ridículo, piegas, o cúmulo do egocentrismo. Talvez. Ela não sabia mais o que fazer. Mas evitava a todo custo passar por esse momento constrangedor. Sua cabeça pesava, seu pescoço doía. Sentar-se na sua cadeira e escrever, ou ler, ou fazer qualquer outra coisa: impossível. Sair na rua era um martírio. Não acreditava quando se via sem saída. Tenho que sair. Pavor! Tudo a irritava: pessoas muito baixas, muito gordas, muito felizes. Ah, isso era o pior. A felicidade manifesta a incomodava muito. Não é possível existir razão para alguém estar feliz assim. As risadas. As vozes. Era horrível ter que ouvir muitas vozes misturadas ao barulho dos carros, motos, ônibus, gente, muita gente. Nem o cinema era mais um refúgio seguro. As pessoas agora viam os filmes como se estivessem nos sofás de suas casas comendo, bebendo e comentando cada cena banal da televisão. Era o fim. Só pode ser o fim. Talvez devesse procurar um psicólogo, terapeuta, psicanalista, alguém. Mas e quando sentar no sofá: o que ela falaria? Não. Melhor evitar mais esse momento constrangedor. Ficar em casa até que era bom. Fumava, comia, sentia sono e preguiça à vontade. Sem culpa? Mas também não fazia tudo o que queria fazer, sozinha. Lia, escrevia. Mas a atenção logo se dissipava. Ansiedade. O que ela esperava? Por quem? Não sei. Não sei. Agonia, dentro de seu apartamento pequeno. Muito pequeno. A cidade parecia tão amável vista da janela. Mas aquele sol, aquela gente. Não. Melhor ficar aqui dentro. Quieta. Pensando. No que ela tanto pensava? Podia ficar horas sem fazer absolutamente nada, ao som de alguma cantora praticamente desconhecida e que usava apenas a voz como instrumento musical. Às vezes dava um aperto no coração. E ela passava a mão no peito. Acariciava seu peito esquerdo, macio. Enfiava a mão por baixo da camiseta. A mão fria no peito fazia o mamilo endurecer na hora. Tesão. Fumava. Não queria mais fumar, mas fumava. Às vezes. E lia. Dormir mesmo só depois da meia-noite. Bem depois. E ela ia trabalhar cedo. Droga! Detestava ter que acordar cedo. Detestava trabalhar também. Por ela, trabalharia de madrugada mesmo, quando a cidade está mais tranqüila, mais misteriosa, menos explícita? Poderia escrever algo sobre a galinha preta no canteiro da esquina praticamente em frente ao hotel. Sorriu. E dormiu. Naquela noite ela sonhou. Ainda sonhava.

(O texto é meu. Na foto, Laura Dern em “Império dos Sonhos”, de David Lynch.)


Escrito por Anderson Vitorino às 11h09



“Canto pra você, porque não tenho mais pra quem cantar”

 

(Trilha sonora: Tajabone – Música que toca no “Tudo Sobre Minha Mãe”, filme do mestre Almodóvar)

 

 

 

A idéia de ter alguém pra quem escrever é fascinante, pelo menos para mim. Não me refiro a um público – não tenho verve de Paulo Coelho – mas sim a uma pessoa, alguém especial. Isso já aconteceu comigo uma vez e escrevi umas duas peças de teatro, poemas, críticas de filmes e mantinha um blog bem ativo. Parece que a paixão me move mais que a depressão, mais glamorosa, por sua vez.

 

Pois é. Vou escrever pra ele, só pra ele. Meus trabalhos da faculdade, posts do blog, poemas, peças, contos, romances. Só pra ele! Sei que ele vai ler e vai pensar: será que sou eu, será que é tudo pra mim? E não me importa se você não gostar. Não me importa se achar pessoal demais ou literário demais. Só sei que quero escrever, pra você. Agora nada importa mais.

 

Entre um dia e outro, entre um mês e um telefonema, um chopp e um café, eu entendi. Pode ser que eu não te veja mais, pode ser que eu te veja todos os dias. Pode ser. Mas vou escrever. Agora não paro mais.

 

O título é de uma música do Vanguart, Promessas de Navegação. Ah, esse post não é para o Hélio.


Escrito por Anderson Vitorino às 00h45



3º Festival Internacional de Animação Erótica

O FIAE - 3º Festival Internacional de Animação Erótica é um festival competitivo de filmes de animação que pretende contribuir para a descoberta e revelação no Brasil de novos filmes e novos cineastas, dentro do universo da animação brasileira e estrangeira. O FIAE é o único festival do gênero no mundo e nasceu em 2006 com o objetivo de estimular a exibição pública de animações que não são distribuídas nem exibidas no circuito tradicional de cinema no Brasil.

Este ano recebemos mais de 200 inscrições de animações de diversas partes do mundo, destes, foram selecionados 149 curtas de 32 países diferentes e 01 longa metragem da Bélgica. Sexo, amor, sensualidade, fetiche, romance, saúde sexual, sexualidade e erotismo são alguns dos temas relacionados aos filmes de animação, brasileiros e estrangeiros, selecionados para esta edição do festival.

Os filmes selecionados participam dos programas: Especial de Abertura, Competição de Curta, Longa Metragem, Competição de Curta Online, Especial Sexo Seguro e Especial City Hunters. Em São Paulo haverá a exibição das Retrospectivas 1 e 2, com os melhores e os premiados de 2006 e 2007.

Os prêmios do festival serão entregues a Melhor Animação Brasileira e Melhor Animação Internacional escolhidas pelo júri popular, através de voto. A Animação Mais Quente será escolhida pelo Sexyhot e a Melhor Animação Online pelo Porta Curtas. A Melhor Animação Brasileira e a Melhor Animação Estrangeira, do Especial Sexo Seguro, também escolhidas pelo júri popular, serão premiadas pela Prudence.

O FIAE 2008 acontece de 03 a 07 de dezembro no HSBC Belas Artes de São Paulo.

Rua da Consolação, 2423
T +55 (11) 3258 4092

Ingressos: R$ 8,00 (inteira). Estudantes, idosos e clientes do HSBC pagam meia.

Programação completa no site do Festival: http://www.fiae.com.br/


Escrito por Anderson Vitorino às 15h24



Rebobine, Por Favor – A Exposição

 

(Para o Almanaque Virtual)

 

 

O aclamado diretor de filmes e videoclipes Michel Gondry esteve em São Paulo para lançar a exposição “Rebobine, Por Favor” no Museu da Imagem e do Som. A partir de 2 de dezembro, o público poderá se inscrever para um workshop e realizar, em uma hora, um filme aos moldes dos produzidos por Jack Black e Mos Def no último filme do diretor, “Rebobine, Por Favor”, que tem previsão de entrar em cartaz no dia 12 desse mês.

 

Em coletiva para a imprensa, Gondry, que é francês, mas vive em Nova York com o filho, falou sobre o nascimento da idéia desse tipo de cinema coletivo. Quando era mais jovem e ainda vivia na França, muitas salas de cinema de seu bairro estavam vazias. Ele pensou na hipótese de a própria vizinhança realizar filmes para serem exibidos nos espaços abandonados. O plano só se concretizou mesmo com o filme “Rebobine, Por Favor”, no qual dois amigos precisam refilmar sucessos do cinema americano, principalmente dos anos 80.

 

Antes de ingressar na carreira cinematográfica, Gondry fez parte de uma banda de rock francês (Oui Oui) e criou alguns videoclipes para seu próprio grupo musical. Sua vida mudou depois que a cantora islandesa Björk viu um desses videoclipes e convidou o jovem músico e diretor para dirigir “Human Behaviour”. Assim, uma carreira aclamada teve início e Gondry dirigiu clipes de bandas como White Stripes, Radiohead, Rolling Stones, Foo Fighters, entre outros.

 

A estréia no cinema foi com a direção de “A Natureza Quase Humana”. Esse primeiro filme já traz a principal característica de Gondry: a fantasia e o fantástico se misturam ao real. O reconhecimento internacional veio com “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, que em 2004 ganhou o Oscar de melhor roteiro original – parceria com Charlie Kaufman. Na seqüência o diretor realizou “Sonhando Acordado”, ainda inédito no circuito comercial brasileiro.

 

 

Além da exposição, que foi apresentada primeiramente em Nova York, Gondry trouxe também a São Paulo o livro “You´ll Like This Film Because You´re In It: The Be Kind Rewind Protocol” no qual ele explica a sua idéia de cinema comunitário. O diretor falou ainda na coletiva sobre seu processo criativo, que varia de acordo com a natureza de cada projeto. Sobre sua relação com Hollywood, Gondry afirma que tem interesse na indústria e é essa que o despreza, ao convidá-lo para projetos interessada apenas em seu nome, não em seu talento e criatividade.

 

“Rebobine, Por Favor – A Exposição” é composta de 13 cenários criados por Gondry nos quais os grupos participantes dos workshops poderão realizar filmes curtos e depois assisti-los na videolocadora montada no espaço. A proposta é que as pessoas interajam e que dessa experiência surja algo fruto do coletivo. Para se cadastrar para os workshops e saber mais sobre a exposição, visite: www.rebobineporfavorexposicao.com.br

 

Serviço:

Rebobine, Por Favor – A Exposição

Local: Museu da Imagem e do Som - Avenida Europa, 158

Data: de 02 de dezembro de 2008 a 11 de janeiro de 2009 * Horários da

exposição: de terça-feira a sábado das 12h00 às 21h00;

domingos e feriados das 11h00 às 20h00 Tel. para

informações: (11) 2117-4777 Entrada: gratuita * o museu

estará fechado nos dias 24 e 25 e 31 de dezembro de 2008 e 01 de janeiro de 2009.


Escrito por Anderson Vitorino às 15h42



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Anderson Vitorino, 28, apaixonado por cinema, iniciou-se na dramaturgia aos 13 anos num curso de teatro. Desde lá, desenvolveu enorme fascínio pelas histórias e imagens. Estudou cinema e aprofunda-se em direção, escrita de roteiro e textos.
Escreveu e dirigiu o curta-metragem Jurema, Te Amo!, 2003. Atualmente cursa Letras na USP.

Contato pelo e-mail:
andervitorino@hotmail.com




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