Um filme sobre um filme inacabado? Não. Santiago está mais para um poema audiovisual. João Moreira Salles tentou no início da década de 90 realizar um documentário sobre o mordomo de sua casa, ou melhor, da casa de seus pais – a casa da Gávea no Rio de Janeiro, hoje o Instituto Moreira Salles. Família erudita, pública e influente, os Moreira Salles deixaram marca profunda na história do país e continuam, agora, através principalmente de seus filhos mais conhecidos: João e Walter.

 

As mais de 9 horas de entrevista com Santiago não deram em muita coisa naquela época. Recentemente, João retomou material e idéia. Em pouco mais de 70 minutos, o filme, narrado em “primeira pessoa” – quem narra na verdade é um irmão, expõe personagem, autor e modo. O mordomo, Santiago, se oferece para a câmera de “Joãozinho” e também se submete a um modo quase tirânico de entrevista. Aqui, João torna visível a busca incessante pelo plano perfeito e até mesmo pela interpretação perfeita. Santiago, morto um tempo após as filmagens, era uma pessoa extremamente singular: tinha vasta cultura, conhecimento de línguas e História, domínio sobre a música e também montava arranjos de flores para os momentos grandiosos no “palácio” Moreira Salles.

 

É perceptível, tanto em detalhes quanto em momentos mais óbvios, a tentativa de se proteger e de ser o mais “objetivo” possível por parte do documentarista. Porém, ao mesmo tempo, há o desejo de se mostrar, de rememorar e, mais ainda, de registrar histórias para uma posteridade qualquer. João se coloca em xeque-mate e Santiago expõe a dor e a crise de reviver a infância, a adolescência. O mordomo foi sem dúvida um importante modelo para os descendentes daquela família: há um momento em que João diz que foi Santiago quem ele viu tocar certa música clássica ao piano pela primeira vez.

 

Memória e o medo da falta dela. Homenagem e saudade. Ficção e documentário. Ética. As discussões e sensações que podem advir de Santiago são inúmeras, logo não cabem aqui e não serei eu, sozinho, o responsável para investigá-las. Resta esperar por mais exibições dessa obra sublime e enquanto isso ler uma nota do próprio João Moreira Salles acerca de seu filme.

 

 

"Santiago" tem uma peculiaridade: 14 anos separam a filmagem da edição. Sem esse intervalo de tempo, o filme não existiria. Não digo isso retoricamente. Ao longo desses 14 anos, minha juventude ficou para trás. Quando filmei, tinha 30 anos; quando montei, 44. Entre um momento e outro, me dei conta do tempo. Adquiri a consciência de que as coisas acabam _consciência aguda, não apenas compreensão intelectual. "Santiago" só existe por causa dessa consciência. Mudei muito desde a filmagem. Por exemplo: mudei minhas idéias sobre o documentário. A consciência do tempo e a da profissão vieram juntas.

 

Isso está refletido no filme que montei com Lívia Serpa e Eduardo Escorel. É um documentário que pensa cada uma de suas etapas às claras. E, sendo um filme na primeira pessoa, "Santiago" fala não só de Santiago, o personagem, mas também de mim, momento a momento. Personagem, processo, autor, tudo está dito no documentário. Depois que o concluí, deixou de existir para mim um fora-do-filme. Por essa razão, toda explicação adicional me parece redundante. "Santiago" é auto-explicativo.

 

João Moreira Salles

 

Santiago, de João Moreira Salles

(BRA, 2006)


Escrito por Anderson Vitorino às 13h40



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Anderson Vitorino, 29, apaixonado por cinema, iniciou-se na dramaturgia aos 13 anos num curso de teatro. Desde lá, desenvolveu enorme fascínio pelas histórias e imagens. Estudou cinema e aprofunda-se em direção, escrita de roteiro e textos. Escreveu e dirigiu o curta-metragem Jurema, Te Amo!, 2003. Atualmente cursa Letras na USP e ensaia o seu primeiro espetáculo em São Paulo "Te espero na última plataforma".

Contato pelo e-mail:
andervitorino@gmail.com

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