É difícil escrever sobre Maria, filme do diretor ítalo-americano Abel Ferrara que estréia hoje nos cinemas. Assisti ao filme na última Mostra Internacional e antes disso tinha visto apenas O Assassino da Furadeira do mesmo diretor que, aliás, adorei!

 

Disse que é difícil de escrever sobre o filme porque em primeiro lugar só o vi uma vez e além de não conhecer a filmografia do diretor, não gostei do filme. Maria propõe a partir dos temas, ou melhor, das situações abordadas uma discussão sobre fé, fanatismo e arte. Até aí, tudo bem. A atriz Juliette Binoche interpreta uma atriz que por sua vez interpreta Maria Madalena num filme sobre a vida de Jesus, que é vivido pelo diretor do filme dentro do filme. Após as filmagens, a atriz não se desliga de sua personagem, nem do sentimento despertado durante o processo e passa a viver na Terra Santa. Enquanto isso nos EUA, o diretor tenta lançar o seu filme, polêmico mesmo antes de exibido. Paralelamente, um homem enfrenta a dificuldade de ver a mulher e filho recém-nascido em perigo de vida.

 

Com essas três situações, Abel Ferrara quer criar um panorama e traçar evidências comuns entre os dilemas enfrentados. Porém, situações conflitantes e ambíguas são filmadas caoticamente, como num filme de suspense, sob constante tensão, mas sem subsídios materiais, ou ficcionais, mais consistentes. Assim me vi frente a algo em desequilíbrio, não as pessoas do drama, mas a obra em si. O tom das interpretações cria um hiper-realismo afetado, amparado por cenas de choro e de gritaria. Não há discussão, mas sim uma visão pessoal imposta por imagens supostamente ambíguas.

 

Maria, de Abel Ferrara 

(Mary, EUA/ITA/FRA, 2005)

Com: Juliette Binoche, Forest Whitaker, Matthew Modine, Heather Graham


Escrito por Anderson Vitorino às 16h40



Moralista, fascista e belicista

 

 

Para começar e evitar proteções e justificativas frágeis ao filme em questão é praticamente impossível não ler um filme sobre uma batalha sem ser pelo viés político e/ou social. E também não há licença “poética” se não há poesia.

 

Fatos: não havia um Estado grego e Esparta era a sede de uma cidade-estado, dentre várias outras daquela região e, portanto nada pode ser chamada de país, como é dito no filme (country, no original). O modo de produção era escravista e até aqui não vejo tanta diferença assim entre o Império Persa do rei Xerxes e os espartanos. Digo isso porque no filme, baseado em HQ de Frank Miller, também autor de Sin City – A Cidade do Pecado, não há em nenhum momento o questionamento da posição de Leônidas, mostrado como um grande salvador do mundo. A falta de ambigüidade nessa questão não é a mesma com que é vista a corte do rei Xerxes, composta por lésbicas deformadas, criaturas assustadoras e o próprio soberano visto muito mais como uma “rainha louca” de escola de samba. As velhas piadinhas homofóbicas para ganhar a simpatia de grande parcela do público, já são usadas logo no início, quando Leônidas se refere a Atenas como ninho de “filósofos e pederastas”. Pois Esparta, apesar de conhecida como “pólis da guerra”, também era palco de desenvolvimento da razão, para não entrar na questão da sexualidade dos homens gregos.

 

A figura do herói, para quem morrer em batalha era motivo de glórias e garantia de ser para sempre lembrado, está no cerne da HQ e do filme. O problema é o que esse herói defende. Livrar o mundo da “tirania e do misticismo” através da guerra é na verdade uma grande farsa para gerar riquezas e conquistar novos territórios. Isso estava no princípio tanto dos espartanos quanto dos persas. A bandeira defendida, aliás, é uma que esteve bem em voga ultimamente e que muitos ainda persistem em usar.

 

Quanto ao visual, todo criado por computação, prefiro a ousadia do P&B com alguns objetos em cores vibrantes utilizado em Sin City – A Cidade do Pecado. Ou melhor, prefiro os desenhos de Hayao Miyasaki (A Viagem de Chihiro, O Castelo Animado). E os atores poderiam ser substituídos por quaisquer outros. E também não me diverti, não porque não gosto de ver violência no cinema, mais porque não sou sádico e nem é possível relevar pregação ideológica contra um povo, tal como é feita contra os persas “místicos” e “irracionais”. E aí o perigo de milhares de pessoas pelo mundo todo que inevitavelmente verão o filme comprarem essa idéia do herói troglodita que sai matando os que são diferentes. E a glória, no final da história, é de quem?

300, de Zack Snyder .

(EUA,2006)

Com: Gerard Butler, Rodrigo Santoro, Lena Headey


Escrito por Anderson Vitorino às 07h49



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Anderson Vitorino, 29, apaixonado por cinema, iniciou-se na dramaturgia aos 13 anos num curso de teatro. Desde lá, desenvolveu enorme fascínio pelas histórias e imagens. Estudou cinema e aprofunda-se em direção, escrita de roteiro e textos. Escreveu e dirigiu o curta-metragem Jurema, Te Amo!, 2003. Atualmente cursa Letras na USP e ensaia o seu primeiro espetáculo em São Paulo "Te espero na última plataforma".

Contato pelo e-mail:
andervitorino@gmail.com

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