Um doce olhar sobre coisas amargas

 

 

A jovem diretora espanhola, Isabel Coixet (47), já havia me encantado com seu filme Minha Vida sem Mim, de 2003. Nesse filme, estrelado pela atriz canadense Sarah Polley (O Doce Amanhã e Estrela Solitária), uma jovem mãe de família descobre que vai morrer em breve devido a um câncer – tema piegas, ponto de partida para um melodrama barato. Porém, é exatamente o contrário que acontece aqui. Ann, a personagem destinada à morte, faz uma lista, sentada em um café, com 10 coisas para fazer antes de morrer. E essas coisas vão de trivialidades, como fazer algo no cabelo, a um encontro com o pai, preso numa cadeia. Ann opta pela vida, mas não com um tom de auto-ajuda, ela nunca se esquece de que morrerá em breve. Assim, a câmera segue a personagem nesse doce “calvário”, embalada por uma trilha sonora suave que inclui, inclusive, uma canção italiana romântica das “clássicas”: Senza Fine (Sem Fim).

 

Da mesma diretora, está em cartaz nos cinemas, A Vida Secreta das Palavras, protagonizado pela mesma atriz, Sarah Polley, que apesar das palavras do título, quase não fala. Nesse filme, a própria Isabel Coixet opera sua câmera, que continua atenta aos gestos mais simples, aos momentos mais significativos e quase sempre, pouco percebidos. A história gira em torno do relacionamento entre uma operária (Polley), que em sua primeira semana de férias se faz enfermeira, e um trabalhador de uma plataforma de petróleo (Tim Robbins), ferido com graves queimaduras após um acidente. O roteiro, original e assinado pela diretora, privilegia o “embate” entre a jovem e seu paciente acamado, mas tem espaço também para alguns outros personagens que orbitam a história com seus dramas não menos complexos, mas pouco explorados. Mais uma vez a música se coloca como a trilha interior que ouvimos, nos mais diversos momentos, e também como doce expressão dos sentimentos despertados pelo filme. É inesquecível a seqüência da chuva ao som de Hope There´s Someone da banda Antony and the Johnsons. Da solidão de uma plataforma em alto mar, praticamente vazia, e da dor física das queimaduras ou das amargas lembranças, Isabel Coixet tira poesia e espontaneidade. O ator espanhol Javier Cámara (Fale com Ela e Má Educação) integra o elenco e por pensar em Almodóvar, vale ressaltar que ambos os filmes de Isabel foram produzidas pela El Deseo, produtora dos irmãos Almodóvar.

 

A Vida Secreta das Palavras, de Isabel Coixet  

(The Secret Life of Words, ESP, 2005)

Veja o trailer do filme!


Escrito por Anderson Vitorino às 21h58



BERNARDO CARVALHO

Perder

 

"Não por Acaso", de Philippe Barcinski, não é um filme realista e não deve ser julgado como tal

TALVEZ POR sugestão do título (e por estarem informadas pelos curtas de estrutura quase matemática realizados anteriormente pelo cineasta), algumas críticas condenaram a ausência de acaso no primeiro longa-metragem de Philippe Barcinski, "Não por Acaso". É preciso dizer que o acaso praticamente inexiste no cinema atual, em qualquer lugar do mundo -e que, se sobrevive, é mais como impressão do que como realidade. É claro que pequenos detalhes imprevisíveis sempre escaparam (embora cada vez menos) ao controle da imagem fotográfica, pela própria especificidade do meio. Mas, em geral, quando você acha um filme mais espontâneo do que outros, isso costuma ser efeito de um cálculo de produção. Sobretudo num mundo de imagens digitais e realidades virtuais. De modo que não faz sentido dizer que falta acaso a um filme. O que falta é a impressão de acaso. E, nesse sentido, o filme ao qual ela faz falta pode ser bem menos manipulador e ilusionista do que aquele em que tudo parece ter sido criado espontaneamente.


O que talvez mais incomode em "Não por Acaso" é o fato de o diretor deixar visível a idéia, o esquema, a estrutura dramática, e usar abertamente o artifício e o cálculo para falar do que só pode ser representado pela falta: a morte. É esse o fundamento e o limite de toda encenação: o real só pode ser representado pelo que não é real. O maior pecado do filme talvez seja afirmar isso com todas as letras.


É verdade que há problemas pontuais: embora o roteiro seja notável, alguns diálogos são sofríveis; os atores em geral estão ótimos (com destaque para Rita Batata e Leonardo Medeiros), mas há deslizes eventuais na sua direção; a música às vezes é excessiva; e, principalmente, embora seja original e ousado, de vez em quando o projeto esbarra numa forma radicalmente contrária à sua originalidade, que faz lembrar o lugar-comum e o artificialismo do padrão de interpretação da novela "de qualidade" da televisão brasileira. Dito isto, é preciso fazer justiça: "Não por Acaso" não é um filme qualquer. Na verdade, é um filme bastante incomum. A começar pela façanha de manter o espectador num estado emocionado permanente e insustentável, com lágrimas nos olhos.


A meio caminho, você entende do que trata a história: em linhas paralelas, dois homens, devastados pela morte de alguém muito próximo e querido, tentam evitar uma segunda perda. "Não por Acaso" não é um filme realista e não deve ser julgado como tal. Há uma série de licenças poéticas. E grande parte da beleza vem justamente de como ele se serve delas para representar a luta de personagens tocados pela morte, tentando preservar o que lhes restou, ao mesmo tempo resignados e desesperados, se debatendo contra o inevitável, que é o que todo mundo faz a vida inteira. Uma luta que só pode ser vencida por meio de um pensamento mítico ou, na falta deste, no âmbito de um pensamento poético, como no filme. Por exemplo: um engenheiro de trânsito vigia de longe a livraria onde trabalha a filha. Como um anjo da guarda, ele a observa à distância, por meio de uma câmera improvável, instalada em alguma parte, no alto. E, numa das cenas mais extraordinárias do filme, pára o trânsito da cidade só para revê-la e para impedir uma nova separação.


Passagens como essa fazem parte da tradição das cenas que, no seu excesso inverossímil, traduzem na imagem cinematográfica sentimentos irrepresentáveis por meio do realismo. São cenas improváveis, construídas em forma de apoteose mágica (seriam impossíveis na vida real) e cuja inverossimilhança é proporcional à nossa vontade (e ao nosso prazer) de revê-las e de acreditar nelas. Cenas como a da morta ressuscitada pela palavra, em "Ordet", de Dreyer.
A São Paulo do filme de Barcinski, embora trabalhada digitalmente nos mínimos detalhes, não é uma imagem de publicidade. É um ser vivo que, à maneira do planeta em "Solaris", de Andrei Tarkovski, se comunica com os personagens e que eles, apesar de submetidos aos seus fluxos (a cidade pode matá-los), também são capazes de observar, compreender e manipular à distância. Mas só até os limites da sua humanidade. Se "Não por Acaso" deixa exposta a insuficiência do cálculo e do controle dos personagens (e do próprio filme), se encena o lugar onde a fórmula matemática sempre falha (e a sua superação por meio de uma imagem poética), é para mostrar a dor desses limites e exaltar a condição trágica da consciência de não poder vencê-los.

(Folha de SP, 19 de junho de 2007)

Leia:

O Sol se Põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho


Escrito por Anderson Vitorino às 10h18



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Anderson Vitorino, 29, apaixonado por cinema, iniciou-se na dramaturgia aos 13 anos num curso de teatro. Desde lá, desenvolveu enorme fascínio pelas histórias e imagens. Estudou cinema e aprofunda-se em direção, escrita de roteiro e textos. Escreveu e dirigiu o curta-metragem Jurema, Te Amo!, 2003. Atualmente cursa Letras na USP e ensaia o seu primeiro espetáculo em São Paulo "Te espero na última plataforma".

Contato pelo e-mail:
andervitorino@gmail.com

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