Salvem o cinema

Não tenho escrito muito por aqui, o que não significa que eu não tenha visto bons filmes. Durante as minha férias (3 semanas) vi pouca coisa: preferi a qualidade! Consegui finalmente ver Prazeres Desconhecidos, do ótimo Jia Zhang-Ke (Em Busca da Vida está em cartaz – Não percam!!), Adeus Dragon Inn, de Tsai Ming-Liang, e Amor à Tarde, do mestre Eric Rohmer.
Os três filmes são sinais de força do que eu chamo de Cinema: uma arte autoral, uma história carregada do espírito de seus autores, impregnada pelo seu tempo. Rohmer filma Paris e o amor, a partir de pessoas comuns, que se tornam especiais por serem únicas, não por nenhum motivo extraordinário. Ming-Liang carrega na estranheza de ser verdadeiro e diferente e ainda por cima explora os elementos cinematográficos para contar uma história e criar um espaço-tempo que é só dele. E Jia Zhang-Ke, que já entrou para a minha lista de diretores favoritos, filma os jovens de uma China em transformação sem querer fazer História e sem vícios nenhum.
Bom, essa introdução foi só para contar que acabei de ver o novo filme do Jorge Furtado. Saneamento Básico – O Filme é ainda um enigma na minha cabeça porque ao mesmo tempo em que o filme pega pela graça do cotidiano, há uma desconstrução do roteiro “perfeito” e um flerte com o nonsense, um sarro total. No calor das emoções eu digo que gostei sim e me diverti bastante, apesar de muitas músicas e uma cena de comercial de motocicleta. Wagner Moura que pra mim está sempre no limite da afetação, está muito bem e consegue se situar ao lado da talentosíssima Fernanda Torres.
Mais uma vez o roteirista e diretor gaúcho dialoga com o público sem apelar para conexões causais fáceis ou soluções previsíveis, e mesmo assim oferece um passatempo doce e fino.
Ainda acho O Homem que Copiava o melhor longa do Furtado, mas a cada vez que me lembro das discussões acerca da micose, do monstro da fossa dançando e do envolvimento da personagem Marina com a produção do vídeo, Saneamento Básico – O Filme cresce, não por nenhuma genialidade, mas sim pelo despropósito, pela piada mesmo. Há, para quem quiser, uma cutucada na “festa” do incentivo fiscal do governo para produções audiovisuais. Aliás, até shows e DVDs que têm como objetivo o lucro pessoal de alguém são “incentivados” pelas leis culturais.É festa ou não é?
E no cinema e na política nacional o que é ficção e o que é realidade?
Saneamento Básico – O Filme, de Jorge Furtado 

(Idem, BRA, 2007)
Escrito por
Anderson Vitorino
às
00h24