A Questão Humana, de Nicolas Klotz

(La Question Humaine, FRA, 2007)

 

 

Em quase 20 anos de carreira ficcional no cinema, Nicolas Klotz sempre mexeu em alguma ferida européia nos seus filmes. Klotz já tratou da imigração africana, da estagnação econômica e em A Questão Humana o tem central é a desintegração do valor da vida humana. O bem-sucedido psicólogo de uma grande empresa, interpretado magnificamente por Mathieu Amalric (Rei & Rainhas), entra em crise pessoal e profissional. A crise é catalisada pela missão que o psicólogo recebe para investigar e diagnosticar o diretor geral da empresa em que trabalha. O personagem principal passa a questionar a condição individual em meio ao mundo empresarial em oposição aos valores virtuais da empresa, que ele sempre priorizou em detrimento dos funcionários enquanto indivíduos. Quando se instala a dúvida em relação ao valor da vida humana, segredos empresariais começam a ser desvendados e ligados ao holocausto operado por nazistas. O psicólogo parece tentar se humanizar a partir de aproximação da música. Ao final dos 144 minutos de filmes, a sensação é de que fomos oprimidos em nossas cadeiras por uma possível verdade bem dolorosa. Destaco a seqüência de uma estranha festa rave, na qual o personagem de Amalric experimenta uma forte dissociação de personalidade embalada por drogas, pela música e iluminação da festa. Ótima surpresa da Mostra, um filme para ser revisto pois há muito mais a ser observado nele.


Escrito por Anderson Vitorino às 11h37



Longe Dela, de Sarah Polley

(Away From Her, CAN, 2006)

 

 

A Mostra Internacional destaca esse ano um movimento, se é que pode ser chamado assim, de atores que passaram a atuar também atrás das câmeras – outros filmes nesse mesmo contexto: Um Amor Jovem (Ethan Hawke), Déficit (Gael García Bernal) e Caixas (Jane Birkin). Ontem vi o primeiro longa-metragem escrito e dirigido pela atriz e diretora canadense, Sarah Polley. Ela atuou em filmes que gosto muito, como O Doce Amanhã (Atom Egoyan), Estrela Solitária (Wim Wenders) e nos filmes da catalã Isabel Coixet (Minha Vida Sem Mim e A Vida Secreta das Palavras). Bom, todas essas referências me fizeram ver o filme, baseado no conto The Bear Came Over the Mountain, sobre um casal que precisa enfrentar o Alzheimer. Polley filma com leveza e controle as reações do casal frente os ataques da doença degenerativa da memória. A memória, aliás, é bastante usada como elemento narrativo, tanto para mostrar o início do romance do casal quanto para externalizar as causas de culpa do homem – aqui o filme cai um pouco por tratar superficialmente essa idéia de culpa por uma possível traição. Fiquei me perguntando porque a diretora quis fazer esse filme e faço um paralelo entre Longe Dela e Um amor Jovem. Em ambos os filmes, jovens diretores usam o espaço do cinema para investigar o amor e os sentimentos paralelos a ele, como paixão, solidão... O que mais gosto no filme é a idéia da memória como constituinte, ou prova, de nossa existência. Parece que se não temos memória não somos. E é essa dor que precisa ser encarada em Longe Dela.


Escrito por Anderson Vitorino às 10h26



Paranoid Park, de Gus Van Sant

(Idem, EUA/FRA, 2007)

 

 

O diretor americano dá seqüência temática e estética a pelo menos três de seus últimos filmes: Gerry, Elefante e Últimos Dias. Universo jovem, longos planos-sequências, economia de diálogos e explicações. Paranoid Park foi adaptado de romance homônimo de Blake Nelson. A história se passa em Portland, no estado de Oregon (EUA). Adolescentes, atores não-profissionais, da própria cidade, foram recrutados para levar às telas o Crime e Castigo do mundo do skate, de acordo com autor do livro. Não vou comentar nada sobre o “crime” tratado no filme, mesmo ele constando nas sinopses espalhadas por aí. Paranoid Park é um grande filme porque, em primeiro lugar: singulariza a experiência da adolescência, evitando clichês e generalizações; segundo: a estrutura reproduz inteligentemente a caoticidade das memórias; terceiro: as imagens se articulam com os sons para criar sensações e não só narrar uma história nos moldes clássicos, e assim Gus Van Sant cria alguns planos assustadores e memoráveis – como o banho de Alex Tremain (Gabe Nevins); e quarto, mas não último: a trilha sonora inclui canções de Nino Rota e Elliot Smith! Também há a fotografia de Christopher Doyle, que foi alçado à fama pelos filmes em parceria com Wong Kar-Wai. Mais uma vez Gus Van Sant conseguiu se aproximar de uma das fases mais perturbadoras da vida de qualquer um – a adolescência, e digo perturbadora, pelo turbilhão de sentimentos, desejos e impulsos. E o filme termina na hora certa – como é bom ver filmes de diretores que têm controle sobre suas criações. Imperdível!

 

* O filme ganhou o prêmio de comemoração dos 60 anos do Festival de Cannes e será exibido na Mostra em cópia digital.


Escrito por Anderson Vitorino às 01h26



Cristóvão Colombo: O Enigma, de Manoel de Oliveira

(Idem, POR/FRA, 2007)

 

 

Com a tradicional economia de personagens e de planos para narrar seus filmes, o quase centenário Manoel de Oliveira se embrenha mais uma vez no terreno histórico para investigar a constituição de um povo e da própria singularidade do homem. O filme é baseado no livro Cristóvão Colombo Era Português e o próprio autor e esposa são os personagens principais do filme. Manuel Luciano da Silva passa mais de meio século investigando as origens do navegador Cristóvão Colombo, que seria português e não italiano como se acredita. Manoel de Oliveira e sua esposa interpretam o casal principal na velhice e o momento mais bonito do filme é a seqüência final em que Maria Isabel de Oliveira canta uma breve canção sobre a saudade e vemos o mar de onde partiram vários portugueses aventureiros.

 

Manoel de Oliveira está presente no filme A 15ª Pedra, em exibição na 31ª Mostra Internacional de Cinema.

 

Um Amor Jovem, de Ethan Hawke

(The Hottest State, EUA, 2006)

 

 

O filme é baseado em romance escrito pelo próprio diretor/ator Ethan Hawke. O título original, The Hottest State (O Estado Mais Quente), diz respeito ao Texas, lugar de origem do personagem principal, o jovem William (Mark Webber). Um Amor Jovem é um filme de lembranças e de buscas. Dois jovens criados pelas mães e em busca de carreiras artísticas em Nova York se encontram e começam um romance singular – ele quer viver um grande amor; ela (Catalino Sandino Moreno) gosta dele, mas ainda tem cicatrizes abertas de um relacionamento passado. Embalados por uma ótima trilha sonora, que inclui a cantora Chan Marshall (Cat Power), o casal vive os prazeres e os percalços de um relacionamento amoroso. No elenco também estão Laura Linney, Sônia Braga e o diretor Ethan Hawke.

 

Vocês, Os Vivos, de Roy Anderson

(Du Levande, SUE/ALE/FRA/DIN/NOR, 2007)

 

 

O diretor sueco Roy Andersson é também um bem-sucedido publicitário. Esse filme tem uma abertura excelente – mulher lamuriosa se maldiz e tenta expulsar o namorado e o cachorro do banco de um jardim e de repente, sua fala ritmada se transforma em uma canção irônica. Ironia, aliás, perpassa todos os 57 planos filmados com a câmera estática e quase sem movimentação de cena. São retratos cínicos e ácidos da sociedade contemporânea, paralisada, ao mesmo tempo em que se ilude com a tecnologia que a cerca. A fotografia é entediante – cores monocromáticas, câmera parada, a trilha sonora composta de jazz é sarcástica e os personagens quase sempre gordos e com péssima aparência. A crítica se faz, mas a repetição beira o enfadonho.


Escrito por Anderson Vitorino às 00h39



Nas trincheiras da 31ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

 

 

Filmes vistos até 21/10 (em breve, críticas e comentários):

 

Lust, Caution, de Ang Lee

Angel, de François Ozon

À Prova de Morte, de Quentin Tarantino 

4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, de Cristian Mungiu

Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto, de Sidney Lumet 

Perdido em Pequim, de Li Yu

A Casa de Alice, Chico Teixeira

Lady Chatterley, de Pascale Ferran 

Control, de Anton Corbijn 

Brand Upon the Brain!, de Guy Maddin

A Via Láctea, de Lina Chamie

Luxury Car, de Chao Wang

Crimes de Autor, de Claude Lelouch

A Coragem de Amar, de Claude Lelouch

People – Histórias de Nova York, de Danny Leiner

A Última Hora, de Nadia Conners e Leila Conners Petersen

Screamers, de Carla Garapedian

Cashback, de Sean Ellis

A Outra Margem, de Luis Filipe Rocha

Hula Girls, de Lee Sang-il

Ruptura, de Mike Eschmann

 

 

Retrospectiva Jia Zhang-Ke:

 

O Mundo

Em Busca da Vida

Prazeres Desconhecidos

Dong


Escrito por Anderson Vitorino às 21h08



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Anderson Vitorino, 29, apaixonado por cinema, iniciou-se na dramaturgia aos 13 anos num curso de teatro. Desde lá, desenvolveu enorme fascínio pelas histórias e imagens. Estudou cinema e aprofunda-se em direção, escrita de roteiro e textos. Escreveu e dirigiu o curta-metragem Jurema, Te Amo!, 2003. Atualmente cursa Letras na USP e ensaia o seu primeiro espetáculo em São Paulo "Te espero na última plataforma".

Contato pelo e-mail:
andervitorino@gmail.com

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