O diretor holandês Paul Verhoeven ("Robocop - O Policial do Futuro", "Instinto Selvagem", "Louca Paixão") voltou a filmar em seu país com o thriller político "A Espiã", roteirizado por ele e Gerard Soeteman a partir de acontecimentos reais. O filme narra a saga da judia Rachel Stein para sobreviver durante a invasão nazista à Holanda.

 

O título original (Zwartboek), traduzido literalmente é "Livro Negro" e diz respeito ao diário de um advogado real que durante a invasão alemã à Holanda negociou tanto com integrantes da resistência quanto com altos comandantes nazistas. No filme há um personagem que representa tal advogado.

 

Verhoeven lançou mão da "cartilha" do cinema clássico, consagrado nos EUA entre os anos 30 e 50, para contar a história da mulher que entra sem querer para a resistência e acaba se infiltrando num quartel general nazista. Com isso o diretor aliou entretenimento e crítica a qualquer tipo de guerra e perseguição religiosa ou social. Do cinema clássico o filme herdou a trilha sonora bastante participativa e evidente e a montagem linear.

 

O clima de suspense advém da constante fuga da judia Rachel, sempre rodeada pelo perigo nazista. Ela inclusive se torna Ellis, uma bela funcionária do QG nazista na Holanda, infiltrada em favor da resistência.

 

A produção é toda muito bem cuidada, mas quem brilha no longa são os atores e em especial Carice van Houten, atriz holandesa de TV, cinema e teatro, que interpreta a protagonista. O ator alemão Sebastian Kock ("A Vida dos Outros") também está no filme de Verhoeven que foi premiado no Festival de Veneza de 2006 com o título de melhor filme internacional/Prêmio Cinema Jovem.

 

“A Espiã”, de Paul Verhoeven 

(Zwartboek, HOL/ALE/BEL, 2006)

Com: Carice van Houten, Sebastian Kock, Thom Hoffman, Halina Reijn


Escrito por Anderson Vitorino às 00h35



 

Pela primeira vez na direção de um filme de ficção, Julie Gavras,

filha do diretor Costa-Gavras, roteirizou e dirigiu "A Culpa é do

Fidel!" - baseado em romance homônimo de Domitilla Calamai. Julie já

havia sido assistente do pai em "Amén" e atuou no filme francês "O

Corte".

 

A política permeia todo o filme, assim como os principais trabalhos de

Costa-Gavras, mas nem por isso pode-se afirmar de que "A Culpa é do

Fidel!" seja um filme político no sentido tradicional. O filme de

Julie consegue se equilibrar muito bem entre um drama familiar com

toques cômicos e o fundo bastante politizado.

 

No início da década de 70, em Paris, uma jovem família é afetada por

acontecimentos sócio-políticos que pipocam por todo o mundo e acabam

tendo que reestruturar toda sua vida. O principal ponto de vista do

filme é o da pequena Anna (Nina Kervel-Bey) que questiona bastante o

engajamento de esquerda dos pais, assim como as novas atitudes "de

esquerda" deles.

 

Aliás, a alternância de pontos de vista, das crianças para os pais, é

um interessante fator no filme, pois assim as certezas são

constantemente questionadas. Há uma tentativa de relativizar as

diferentes percepções acerca do que é ser de esquerda, socialista,

capitalista, etc. E daí talvez advenha a principal idéia do filme:

tudo tem dois, ou mais, lados.

 

O humor, que também permeia o longa, vem de certa ingenuidade dos

personagens, como acontece com a jovem Anna que acredita que os

barbudos (comunistas) são os culpados pelas agruras de sua família.

Além disso, a própria referência a Fidel, líder cubano, como sendo

culpado por toda confusão que assolou o mundo depois da Segunda Guerra

Mundial. Os clichês com que um lado vê o outro são ferramentas usadas

para fazer rir.

 

O filme foi exibido na mostra competitiva do Festival de Sundance em

2006 e traz no elenco Julie Depardieu, filha do astro francês Gérard

Depardieu, e Stefano Accorsi ("O Quarto do Filho" e "Capitães de

Abril").

 

”A Culpa é do Fidel!”, de Julie Gavras 

(La Faute à Fidel!, ITA/FRA, 2006)

Com: Stefano Accorsi, Julie Depardieu, Nina Kervel-Bey


Escrito por Anderson Vitorino às 00h29



 

“Cidade dos Sonhos” já havia nos mostrado Hollywood como um lugar mágico e assustador, mas é em “Império dos Sonhos” que David Lynch vai fundo nessa concepção: o personagem relâmpago de William H. Macy anuncia que na cidade do cinema “estrelas fazem sonhos e sonhos fazem estrelas”. De qualquer forma, não nos enganemos, Hollywood é apenas umas das questões do mais recente longa-metragem do provocador David Lynch.

 

Só para deixar bem claro, não faz nenhum sentido alguém propor uma interpretação ou leitura única para as obras do multiartista americano, nascido na pequena cidade de Missoula (Montana) em 1946. O próprio realizador já afirmou que respeita o mistério a ponto de não revelá-lo e, além disso, suas obras dialogam com a pintura e com o vídeo experimental – outros terrenos por onde ele mesmo caminha, além de cultivar café e ser adepto da meditação.

 

Em linhas gerais, “Império dos Sonhos” trata das filmagens de um filme e da confusão enfrentada pela atriz principal que se confunde/divide com a personagem que interpreta. E daí começa toda a “confusão”. Entramos num imenso labirinto povoado por personagens poloneses, humanos com cabeças de coelhos, um marido ciumento e uma esposa traída em busca de vingança.

 

É a luz de um projetor de cinema que ilumina o título do filme, no original, “Inland Empire”, algo do tipo Império interior, ou interno. E o que está dentro, no interior? Bom, uma das hipóteses é que, se o filme trata de personagens e suas confusões, o “inland” do título pode se referir ao interior humano, para alguns a mente, para outros, a alma. Independente do que considerarmos como o âmago de um indivíduo é para lá que ruma o cinema de David Lynch.

 

A atriz Laura Dern volta a trabalhar com David Lynch – ela estrelou “Veludo Azul” e “Coração Selvagem” – e dá vida à rica atriz Nikki Grace, que embarca na experiêNikki Grace, que embarca na expericom David Lynch - ela loneses, humanos com cabeças de coelhos, um marido ciumento e uma esposncia de participar da refilmagem de um filme maldito nunca terminado. Durante as filmagens de “No More Blue Tomorrows” (Chega de tristes amanhãs), Nikki se envolve, ou imagina se envolver, com seu parceiro no trabalho, o ator Devon Berk (Justin Theroux, de “Cidade dos sonhos”). Há ainda a opção de essa ser justamente a história do filme dentro do filme: um caso de adultério com final trágico.

 

Mas dificilmente David Lynch faria um filme sobre casamento e adultério. É mais fácil encontrar esse tema em programas de TV, do tipo sitcom, ironizados em “Império dos Sonhos” pelos grandes coelhos humanos que agem e falam como autômatos, ao som de risadas em off de uma suposta platéia, exatamente como as séries de TV americanas (as cenas compõem a série para internet chamada “Rabbits”).

 

A desintegração da personalidade também é um tema fundamental da obra lynchiana e nesse filme a personagem de Laura Dern é fragmentada em várias partes: há a personagem que ela interpreta dentro do filme (Sue), a personagem que nasce da fusão das duas e ainda várias mulheres de temperamentos variados que interagem com Nikki e Nikki/Sue.

 

Lynch usou o digital e atingiu assim talvez o ápice da liberdade que necessita para se expressar. Filmou o quanto quis – o filme tem praticamente três horas – e abusou dos recursos de lentes e cores que a tecnologia digital pode oferecer. O som, e especialmente as músicas, continua a exercer um papel fundamental no labirinto de emoções que é um filme do cineasta.

 

“Império dos Sonhos” ganhou um prêmio especial de melhor filme experimental da Associação Nacional de Críticos (EUA) e também foi agraciado com o prêmio “Future Film Festival Digital” no Festival de Veneza.

 

“Império dos Sonhos”, de David Lynch 

(Inland Empire, EUA/FRA/POL, 2006)

Com: Laura Dern, Jeremy Irons, Justin Theroux e William H. Macy

Escrito por Anderson Vitorino às 00h20



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Anderson Vitorino, 29, apaixonado por cinema, iniciou-se na dramaturgia aos 13 anos num curso de teatro. Desde lá, desenvolveu enorme fascínio pelas histórias e imagens. Estudou cinema e aprofunda-se em direção, escrita de roteiro e textos. Escreveu e dirigiu o curta-metragem Jurema, Te Amo!, 2003. Atualmente cursa Letras na USP e ensaia o seu primeiro espetáculo em São Paulo "Te espero na última plataforma".

Contato pelo e-mail:
andervitorino@gmail.com

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