Em primeiro lugar é preciso louvar a corajosa aposta chilena em “Tony Manero” para concorrer a uma vaga na indicação do Oscar de melhor filme estrangeiro. Por que? O filme é cru, sem enfeites, seu personagem principal um assassino alienado e o diretor Pablo Larraín pode ser considerado ainda um estreante – seu primeiro longa foi “Fuga” (2005).

 

O filme se passa no Chile durante a ditadura de Pinochet e os personagens são todos da classe média e baixa. O personagem principal, Raúl, um homem de 52 anos, representa o máximo da alienação em “tempos de guerra”. Ele personifica a total evasão ao ignorar o contexto sócio-político em que vive e tenta criar um universo paralelo.

 

Abri o texto falando de coragem porque “Tony Manero”, sutilmente, coloca em cena o papel dos Estados Unidos nas ditaduras militares na América Latina. A partir de uma dominação cultural crescente – via cinema, por exemplo – a cultura norte-americana vira modelo de progresso e avanço dentro dos países dominados por militares egocêntricos e ignorantes.

 

Raúl quer ser Tony Manero, papel de John Travolta em “Os Embalos de sábado à Noite” (1977), filme visto e revisto a exaustão. Aqui faço um paralelo entre o personagem principal e o próprio general Pinochet. Ambos seguem um modelo exterior, fecham os olhos para o próprio país e agem inconseqüentemente para atingir os objetivos.

 

Há o contraponto a esses personagens. Alguns dos “bailarinos” que acompanham Raúl em show cover do filme com Travolta estão envolvidos com a resistência: distribuem folhetos contra o regime ditatorial de Pinochet. Mas mesmo com esse foco de resistência o filme não resvala para nenhuma maquiagem: é cru e violento, como foi o modo que Pinochet assolou o país.

 

Tony Manero (Idem, CHI/BRA, 2008, 99’)

Direção: Pablo Larraín

Elenco: Alfredo Castro, Amparo Noguera, Héctor Morales, Paola Lattus, Elsa Poblete

 

Próxima exibição na Mostra:

29/10 – Unibanco Arteplex 3 (14h40)

 

Outros filmes na 32ª Mostra que concorrem por um vaga na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro:

 

Argentina, "Leonera", de Pablo Trapero
Bósnia Herzegovina, "Neve", de Aida Begic
Brasil, "Última Parada - 174", de Bruno Barreto
Cazaquistão, "Tulpan", de Sergey Dvortsevoy
Chile, "Tony Manero", de Pablo Larrain
Colômbia, "Perro Come Perro", de Carlos Moreno
Irã, "A Canção dos Pardais", de Majid Majidi
Israel, "Waltz with Bashir", de Ari Folman
Itália, "Gomorra", de Matteo Garrone
Jordânia, "Capitão Abu Raed", de Amin Matalqa
Líbano, "Sob as Bombas", de Philippe Aractingi
Lituânia, "Perda", de Maris Martinsons
Marrocos, "Adeus às Mães", de Mohamed Ismail
Noruega, "O’Horten", de Bent Hamer
Portugal, "Aquele Querido Mês de Agosto", de Miguel Gomes
Suíça, "O Amigo", de Micha Lewinsky
Turquia, "Three Monkeys",  Nuri Bilge Ceylan


Escrito por Anderson Vitorino às 20h52



O cinema do argentino Daniel Burman já é conhecido no Brasil – e no mundo. O cineasta apareceu por aqui pela primeira vez com o filme “Esperando al Mesias” (2000), exibido na 24ª Mostra Internacional de Cinema. Mas foi com “O Abraço Partido” (2004) que Burman ganhou notoriedade, o filme ganhou dois prêmios no Festival de Berlim (Melhor filme e melhor ator, para Daniel Hendler).

 

Burman tem origem judaico-polonesa e essa característica é transpassada para seus trabalhos. Desde “Esperando al Mesias”, parece que o cineasta faz uma espécie de série cinematográfica. Foi anunciada uma trilogia do personagem Ariel, que se completaria com “O Abraço Partido” e “As Leis de Família” (2006), mas o que vemos em “Ninho Vazio” (2008), pode muito bem uma seqüência dessa trajetória.

 

Claro que não há um encadeamento de personagens e histórias entre os filmes, mas sim um amadurecimento dos personagens, substituídos por outros, com outras histórias, mas em outro estágio da vida. O cineasta também parece amadurecer e depurar seu estilo de fazer cinema, algo entre o drama e uma comédia agridoce – pode-se pensar até no humor judaico.

 

Depois do personagem Ariel (alter-ego de Burman?) questionar sua identidade, suas origens judaicas, amargar a ausência paterna e enfrentar o casamento e a paternidade, chegou a hora de um casal mais velho passar pela experiência de ver os filhos crescerem e, inevitavelmente, deixarem o lar. “Ninho Vazio” está localizado nesse momento da vida: quando os filhos crescem e se vão. O que fazer?

 

O casal maduro, interpretado pelos excelentes Oscar Martínez e Cecília Roth, precisa encarar a ausência dos 3 filhos, que pareciam preencher completamente a existência dos pais. Ele, um escritor bem sucedido, entra em crise de criatividade, e ela resolve voltar a estudar.  Como lidar com a distância dos filhos? Como preencher o tempo com novas atividades? E o casamento? É em busca dessas respostas que os personagens de “Ninho Vazio” embarcam.

 

Vale prestar atenção à excelente trilha sonora jazzística que acompanha, principalmente, as aventuras do pai Leonardo (Martínez). “Ninho Vazio” foi exibido na competição oficial do Festival de Berlim.

 

Ninho Vazio (Nido Vacío, ARG/ESP, 2008, 91’)

Direção: Daniel Burman

Elenco: Carlos Bermejo, Eugenia Capizzano, Inés Efron, Arturo Goetz, Oscar Martinez

 

Próximas exibições na Mostra:

20/10 – Reserva Cultural (21h50)

21/10 – Unibanco Arteplex (15h30)

22/10 – Unibanco Arteplex (18h20)

27/10 – Cine Bombril (17h50)


Escrito por Anderson Vitorino às 13h06



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Anderson Vitorino, 29, apaixonado por cinema, iniciou-se na dramaturgia aos 13 anos num curso de teatro. Desde lá, desenvolveu enorme fascínio pelas histórias e imagens. Estudou cinema e aprofunda-se em direção, escrita de roteiro e textos. Escreveu e dirigiu o curta-metragem Jurema, Te Amo!, 2003. Atualmente cursa Letras na USP e ensaia o seu primeiro espetáculo em São Paulo "Te espero na última plataforma".

Contato pelo e-mail:
andervitorino@gmail.com

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