Viva la revolución

 

O já épico “Che” se materializou graças aos esforços do ator porto-riquenho Benício Del Toro, da produtora Laura Bickford e do diretor americano Steven Soderbergh (1963). Soderbergh ajudou a estabelecer o que se tornou quase um gênero à parte: o cinema independente norte-americano. Em 1989, ganhou a palma de ouro no festival de Cannes com “Sexo, Mentiras e Videotape” (exibido na 13ª Mostra Internacional de Cinema). Desde então, o diretor produz ininterruptamente e transita como poucos entre o cinema de autor e o comercial.

 

A fonte principal para a roteirização das duas partes de “Che” (“O Argentino” e “A Guerrilha”) foi “O Diário de Che na Bolívia”, publicado no Brasil pela editora Record. De acordo com o material de imprensa sobre a produção, foram mais de 10 anos de pesquisa, conversas com sobreviventes da Revolução Cubana e desenvolvimento de versões para o roteiro, escrito por Peter Buchman e Benjamin A. van der Veen.

 

A primeira parte de “Che” começa com o encontro no México, em 1955, entre Ernesto Guevara, Fidel Castro e outros, que seriam responsáveis pelo início do ataque contra a ditadura corrupta de Fulgêncio Batista em Cuba. O filme se concentra no desenvolvimento de Che, como ficou conhecido Ernesto entre os cubanos, na arte de guerrilha – estratégia responsável pela vitória dos revolucionários contra o ditador Batista, apoiado pelos Estados Unidos.

 

Após a vitória de Fidel Castro e seus companheiros em 1959, Che conquista grande popularidade e discursa nas Nações Unidas e dá entrevistas nos EUA. Já estamos na segunda parte, “A Guerrilha”, que se passa quase inteiramente no interior da Bolívia, onde Che tenta formar um novo exército de guerrilha para empreender a Grande Revolução Latino-Americana. Porém, o governo boliviano age de forma intensa junto à população para construir uma imagem negativa dos revolucionários, principalmente dos cubanos.

 

Tratar de Che Guevara é uma atitude corajosa, visto que sua figura é extremamente controversa: há os que admiram, os que acusam, os que seguem e os que consomem. Walter Salles, por exemplo, foi extremamente acusado por ter feito um retrato etéreo demais de Che em “Diários de Motocicleta”.

 

Polêmicas à parte, o filme de Soderbergh é uma grande obra, que acompanha de perto a formação de um mito que fez a revolução ao lado de homens que defendiam sua terra. E mesmo que a produtora Laura Bickford afirme que eles não estavam interessados na política atual ao fazer esse filme, “Che” talvez seja um recado urgente e necessário aos países da América Latina. O ator Benício Del Toro foi o vencedor do prêmio de melhor ator no último festival de Cannes – mais do que merecido.

 

Che (Che, EUA/ESP/FRA, 2008, 268’)

Direção: Steven Soderbergh

Elenco: Benicio Del Toro, Catalina Sandino Moreno, Demián Bichir, Rodrigo Santoro, Franka Potente

 

Exibições na 32ª Mostras:

30/10 – Unibanco Arteplex 1 e 2 (19h)

31/10 – CineSESC (18h10)

 

* O filme tem previsão para estrear comercialmente no Brasil em fevereiro (a primeira parte) e em maio (a segunda parte). A distribuição é da Europa Filmes.


Escrito por Anderson Vitorino às 23h13



Noivas de Alá

 

Documentário sobre palestinas condenadas pelo governo israelense por envolvimento em atentados terroristas. A cineasta israelense judia Natalie Assouline entrevista e registra o dia-a-dia das mulheres presas, muitas das quais estão com seus filhos, de até 2 anos de idade, ou grávidas.

 

As palestinas encarceradas se envolveram direta ou indiretamente em atentados em Israel, geralmente envolvendo explosivos. A maior parte delas se justifica religiosamente, defendem o direito à jihad, palavra que quer dizer esforço e que, infelizmente, caiu no senso comum como sinônimo de guerra santa.

 

O esforço da cineasta israelense é louvável: ela passou 2 anos acompanhando a rotina dessas mulheres e tentando, de certa forma, entendê-las, sem necessariamente aceitar as razões. O filme peca por, aparentemente, buscar razões pessoais e familiares para as atitudes terroristas de todas as mulheres, como se todas tivessem problemas em casa.

 

Noivas de Alá (Shahida, Israel, 2008, 76’)

Direção: Natalie Assouline


Escrito por Anderson Vitorino às 23h52



A hora e vez de Wim Wenders

 

Pode-se dizer que o cineasta alemão Wim Wenders (1945) é um dos grandes homenageados por essa edição da Mostra Internacional de Cinema. O diretor está presente no evento desde 1977, quando foi exibido o filme “O Amigo Americano”. Com uma extensa filmografia, que parte da Europa para os Estados Unidos, passando por Cuba e pelo Japão, Wenders traz à 32ª Mostra seu mais recente trabalho, recebe o prêmio Humanidade e ainda tem carta branca para montar uma seleção de filmes.

 

“Palermo Shooting” é um filme, que como vários outros de Wenders, rende diversas homenagens. Antes do fim anunciar que a obra é dedicada a Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni, mortos no mesmo dia em 2007, já é possível reconhecer a influência desses mestres no trabalho do diretor alemão. “Palermo Shooting” discute (com) a morte, como Bergman fez em “O Sétimo Selo”, e tem como protagonista um fotógrafo, referência a Antonioni e seus clássicos “Blow-Up” e “Profissão: Repórter”.

 

Mas o diretor também faz várias auto-referências. É a primeira vez que Wenders filma em sua cidade natal, Düsseldorf, o protagonista (interpretado pelo roqueiro Campino) é um fã de rock and roll, e da música em geral, como o diretor e, além disso, há as participações dos amigos e colaboradores Lou Reed e Dennis Hopper.

 

Em “Palermo Shooting”, o bem-sucedido fotógrafo Finn encontra uma boa oportunidade para descansar e pensar em sua vida ao viajar a trabalho para Palermo na Itália. Lá ele consegue ficar completamente sozinho e se desconectar (e seu celular) da rotina. Na cidade italiana ele tem uma espécie de alucinação com um homem que tenta acertá-lo com uma flecha. Finn começa a seguir obsessivamente esse tipo, que parece querer matá-lo, e durante esse tempo é confrontado com a temporalidade das coisas do mundo, além da sua própria.

 

Palermo Shooting (Idem, ALE, 2008, 124’)

Direção: Wim Wenders

Elenco: Campino, Giovanna Mezzogiorno, Dennis Hopper, Lou Reed, Inga Bush


Escrito por Anderson Vitorino às 23h38



Expiando a culpa alheia

 

Durante os anos 1980, o Líbano foi palco de mais uma guerra sangrenta por interesses comerciais, financeiros e políticos. Desde a criação de Israel em 1948, milhares de palestinos se refugiaram no Líbano, depois de serem expulsos de suas terras. A existência de uma população extremamente heterogênea, de diversos grupos religiosos, como os cristãos maronitas e as diferentes correntes islâmicas, culmina numa disputa armada em junho de 1982.

 

Com o apoio das milícias cristãs, tropas israelenses invadem o Líbano e assim chegamos à animação “Waltz With Bashir” de Ari Folman, que gerou muita atenção em disputa no último festival de Cannes, mas não saiu com nenhum prêmio. Ari Folman nasceu em Haifa, Israel, e é diretor e roteirista dos filmes “Comfortably Numb” (1991), “Saint Clara” (1996), “Made in Israel” (2001).

 

O filme é uma espécie de longa sessão de terapia, na qual o diretor tenta, através de conversas com amigos, relembrar suas ações nos anos 80, quando serviu no exército israelense. As memórias são turvas e sombrias, imagens da guerra povoam os sonhos de Ari e o inquietam ao ponto de querer reconstituir seu papel nas invasões, mas nunca o papel do exército.

 

“Waltz With bashir” não lança luz sobre nenhum fato novo, ao contrário, obscurece as razões da guerra, ao se focar apenas nas lembranças, que como o filme mostra, são sempre falhadas e parciais. A conclusão que o espectador desavisado pode tirar é que as tropas israelenses estavam bombardeando o Líbano quase que por acaso e que, a culpa pela destruição e extermínio de milhares de palestinos refugiados recai apenas sobre a milícia de extrema-direira Falange Cristã.

 

Ao evocar as assombrações dos campos de concentração nazistas como paralelo do horror dos campos de palestinos refugiados no Líbano, tudo fica ainda mais confuso. Não há referências à OLP (Organização para a libertação da Palestina) e nem ao incômodo de Israel com essa organização e, muito menos, aos interesses sírios nessa guerra.

 

Graficamente a animação é muito interessante, mas está bem longe, por exemplo, de “Persépolis”, que também atraiu muita atenção ao usar a essa linguagem para tratar criticamente as memórias de uma iraniana que emigrou para a França. “Waltz With Bashir” é uma perigosa manifestação que simplifica e obscurece os fatos.

 

Waltz with Bashir (Idem, Israel/ALE/FRA, 2008, 87’)

Direção: Ari Folman

 

O filme teve duas exibições na 32ª Mostra, no dia 25/10. Ainda não há previsão de estréia comercial no país.


Escrito por Anderson Vitorino às 15h39



 “Three Monkeys” desembarca em São Paulo após ter concorrido à palma de ouro no Festival de Cannes, onde o diretor Nuri Bilge Ceylan saiu como ganhador do prêmio de melhor diretor da competição.

 

Com um título intrigante (Três Macacos, em tradução livre) e uma fotografia sombria, que privilegia o mistério, o filme tem como foco uma família cujas relações e histórias vão revelando-se aos poucos. Numa cidade (Istambul?) onde o subemprego parece ser dominante, o filho do casal protagonista vive em constante tédio e em crise com sua mãe. Essa, por sua vez, acaba encontrando uma saída para sua rotina enfadonha.

 

Entre os outros personagens do filme estão o patriarca do núcleo familiar e seu patrão. Uma das perguntas interessantes que ficam após a exibição de “Three Monkeys” é quem são esses três macacos do título do filme.

 

A mentira, ou a omissão da verdade, são recursos recorrentes na história. Os personagens optam por um desvirtuamento da realidade como forma de sobrevivência ou ainda, como forma de vencer na vida – e na política?

 

Nuri Bilge Ceylan nasceu em Istambul, Turquia, em 1959. Depois de se formar em Engenharia na Bosphorus University, estudou Cinema por dois anos na Mimar Sinan University. Ator, diretor, produtor e roteirista, fez seu primeiro curta-metragem, “Koza”, em 1995. Em 1997 realizou o primeiro longa, “Kasaba”. Com “Mayis Sikintisi” (1999), ganhou inúmeros prêmios, entre eles o de melhor filme no Festival de Ankara. Em 2002, concluiu “Distante”, vencedor do grande prêmio do júri no Festival de Cannes 2003 e exibido na 27ª Mostra. “Climas” (2006) foi exibido na 30ª Mostra e tem previsão para entrar em cartaz no Brasil.

 

Three Monkeys (Üç maymun, TUR, 2008, 109’)

Direção: Nuri Bilge Ceylan

Elenco: Hatice Aslan, Gürkan Aydin, Yavuz Bingöl, Ercan Kesal, Ahmet Rifat Sungar

 

Exibições na 32a Mostra:

27/10 – Unibanco Arteplex (20h10)

28/10 – HSBC Belas Artes (21h40)

29/10 – Unibanco arteplex (22h10)

30/10 – Cine Bombril (21h40)


Escrito por Anderson Vitorino às 15h35



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Anderson Vitorino, 29, apaixonado por cinema, iniciou-se na dramaturgia aos 13 anos num curso de teatro. Desde lá, desenvolveu enorme fascínio pelas histórias e imagens. Estudou cinema e aprofunda-se em direção, escrita de roteiro e textos. Escreveu e dirigiu o curta-metragem Jurema, Te Amo!, 2003. Atualmente cursa Letras na USP e ensaia o seu primeiro espetáculo em São Paulo "Te espero na última plataforma".

Contato pelo e-mail:
andervitorino@gmail.com

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