Ela estava deprimida. Não tinha mais nada a descobrir. Depressão. E ninguém percebia? Por quê? Será que ela teria que falar olá estou deprimida e preciso de ajuda? Isso seria ridículo, piegas, o cúmulo do egocentrismo. Talvez. Ela não sabia mais o que fazer. Mas evitava a todo custo passar por esse momento constrangedor. Sua cabeça pesava, seu pescoço doía. Sentar-se na sua cadeira e escrever, ou ler, ou fazer qualquer outra coisa: impossível. Sair na rua era um martírio. Não acreditava quando se via sem saída. Tenho que sair. Pavor! Tudo a irritava: pessoas muito baixas, muito gordas, muito felizes. Ah, isso era o pior. A felicidade manifesta a incomodava muito. Não é possível existir razão para alguém estar feliz assim. As risadas. As vozes. Era horrível ter que ouvir muitas vozes misturadas ao barulho dos carros, motos, ônibus, gente, muita gente. Nem o cinema era mais um refúgio seguro. As pessoas agora viam os filmes como se estivessem nos sofás de suas casas comendo, bebendo e comentando cada cena banal da televisão. Era o fim. Só pode ser o fim. Talvez devesse procurar um psicólogo, terapeuta, psicanalista, alguém. Mas e quando sentar no sofá: o que ela falaria? Não. Melhor evitar mais esse momento constrangedor. Ficar em casa até que era bom. Fumava, comia, sentia sono e preguiça à vontade. Sem culpa? Mas também não fazia tudo o que queria fazer, sozinha. Lia, escrevia. Mas a atenção logo se dissipava. Ansiedade. O que ela esperava? Por quem? Não sei. Não sei. Agonia, dentro de seu apartamento pequeno. Muito pequeno. A cidade parecia tão amável vista da janela. Mas aquele sol, aquela gente. Não. Melhor ficar aqui dentro. Quieta. Pensando. No que ela tanto pensava? Podia ficar horas sem fazer absolutamente nada, ao som de alguma cantora praticamente desconhecida e que usava apenas a voz como instrumento musical. Às vezes dava um aperto no coração. E ela passava a mão no peito. Acariciava seu peito esquerdo, macio. Enfiava a mão por baixo da camiseta. A mão fria no peito fazia o mamilo endurecer na hora. Tesão. Fumava. Não queria mais fumar, mas fumava. Às vezes. E lia. Dormir mesmo só depois da meia-noite. Bem depois. E ela ia trabalhar cedo. Droga! Detestava ter que acordar cedo. Detestava trabalhar também. Por ela, trabalharia de madrugada mesmo, quando a cidade está mais tranqüila, mais misteriosa, menos explícita? Poderia escrever algo sobre a galinha preta no canteiro da esquina praticamente em frente ao hotel. Sorriu. E dormiu. Naquela noite ela sonhou. Ainda sonhava.
(O texto é meu. Na foto, Laura Dern em “Império dos Sonhos”, de David Lynch.)
Escrito por
Anderson Vitorino
às
11h09
“Canto pra você, porque não tenho mais pra quem cantar”
(Trilha sonora: Tajabone – Música que toca no “Tudo Sobre Minha Mãe”, filme do mestre Almodóvar)
A idéia de ter alguém pra quem escrever é fascinante, pelo menos para mim. Não me refiro a um público – não tenho verve de Paulo Coelho – mas sim a uma pessoa, alguém especial. Isso já aconteceu comigo uma vez e escrevi umas duas peças de teatro, poemas, críticas de filmes e mantinha um blog bem ativo. Parece que a paixão me move mais que a depressão, mais glamorosa, por sua vez.
Pois é. Vou escrever pra ele, só pra ele. Meus trabalhos da faculdade, posts do blog, poemas, peças, contos, romances. Só pra ele! Sei que ele vai ler e vai pensar: será que sou eu, será que é tudo pra mim? E não me importa se você não gostar. Não me importa se achar pessoal demais ou literário demais. Só sei que quero escrever, pra você. Agora nada importa mais.
Entre um dia e outro, entre um mês e um telefonema, um chopp e um café, eu entendi. Pode ser que eu não te veja mais, pode ser que eu te veja todos os dias. Pode ser. Mas vou escrever. Agora não paro mais.
O título é de uma música do Vanguart, Promessas de Navegação. Ah, esse post não é para o Hélio.
Anderson Vitorino, 28, apaixonado por cinema, iniciou-se na dramaturgia aos 13 anos num curso de teatro. Desde lá, desenvolveu enorme fascínio pelas histórias e imagens. Estudou cinema e aprofunda-se em direção, escrita de roteiro e textos.
Escreveu e dirigiu o curta-metragem Jurema, Te Amo!, 2003. Atualmente cursa Letras na USP.