De volta às aldeotas

 

Ela entrou na sala do psicólogo, como havia feito em praticamente todas as quintas-feiras dos últimos 3 anos, e sentou-se. Antes mesmo de deixar que ele falasse qualquer coisa, foi logo pedindo: posso escrever? Hoje não quero falar. Geralmente, ele era resistente às resistências dela, mas fez um aceno com a cabeça. Ela pensou que ele também não queria falar. É melhor assim. Pegou as folhas que ficavam soltas em cima da mesa de centro da sala. A caneta, pegou uma sua mesmo, de dentro da bolsa vermelha favorita. Com a caneta em punho, parou e pensou. Também não sabia o que ia escrever. Nesse momento, o psicólogo olhava para a janela, de onde, por entre a persiana meio aberta, entrava o sol do fim da tarde. Ela começou a escrever.

 

“No sábado passado fui ao teatro. Vi a peça ‘Aldeotas’. É uma com o Caco Ciocler e aquele outro ator engraçado... Não lembro do nome dele agora, mas ele fez vários filmes. Ah! Era o Sem Chance do ‘Carandiru’. Adorei a peça! Quando entramos no teatro, os atores já estavam lá, fazendo uns exercícios – deve ser de preparação, ou aquecimento. São só os dois o tempo todo e eles vão contando as coisas da infância, e fazendo, ao mesmo tempo. Eles moravam numa cidade bem pequena do interior do nordeste, eu acho. Brincavam e aprontavam como crianças de qualquer lugar do mundo. Num certo momento até, o Sem Chance, entra num buraco de formigas e visita o centro da terra, risos. Pensei na Emília e em suas histórias malucas e divertidas. Bom, mas o problema é que esses dois amigos eram meio diferentes dos outros meninos da escola. Eles gostavam de literatura e um deles até escrevia poemas para o outro ler como crítico! O tempo vai passando e eles até publicam esses poemas numa espécie de jornal. Uma outra coisa que eu não entendi bem, é que parece que o outro, sem ser o Caco Ciocler, era meio gay. Quer dizer, o personagem do Caco Ciocler também, mas o outro mais. Tem até um beijo e algumas pessoas ficaram assustadas. Eu não. Porque eu acho normal, né? Mas acontece que eles resolvem fugir. Eles querem ir pra outra cidade, maior, com mais oportunidades. E acaba que só um vai. O poeta mesmo. O Caco Ciocler fica e é obrigado a casar com uma prima e a trabalhar na roça. Não sei bem porquê, mas essa peça me deixou encucada. Meu namorado depois falou que não deveria ter me levado ao teatro. Mas eu fiquei pensando que eu também já tive essa vontade de sair daqui, de São Paulo, eu quero dizer. Nem sei para onde eu iria, porque essa cidade já é uma das maiores do mundo. O negócio é que voltei a pensar nisso. Algumas amigas e amigos já tiveram que ir embora daqui. E eu às vezes penso se eu também não deveria ir, viajar, conhecer outros lugares. Sabe? Meu namorado já quis logo saber se eu não gostava mais dele, risos. E eu gosto, muito. E tem minha família, amigos, faculdade. Gosto de tudo. Mas mesmo assim, parece que falta algo. Ah! Gostei muito de uma coisa que o (LEMBREI!) Gero Camilo disse. Ele falou que já sabia como o mundo era. Ele só queria comprovar! Bom, acho que é isso. Por hoje.”

 

Ela parou de escrever e olhou para o psicólogo que olhava para ela. Levantou-se, entregou a folha para ele e despediu-se com um beijo no rosto. O homem ficou sentado e logo depois que a porta fechou atrás de si, começou a ler a “carta” de sua paciente. Ele sorriu com esse exercício alternativo de análise proposto por ela. O relato da ida ao teatro fez com que ele pensasse nas coisas e nas pessoas que ele mesmo abandonou, ou teve que abandonar, como sempre preferiu pensar. Há aproximadamente 15 anos, ele mesmo deixou sua aldeota para trás. Mal sabia o que era psicologia, nem quem era Freud e muito menos o que era behaviorismo. Sabia que era diferente e que precisava sair, fugir. Diferente do personagem da peça, ele não sabia como o mundo era. Ele tinha uma mala e muita coisa para aprender. Deixou na pequena cidade sua infância de brincadeiras inventivas, seu único amigo, sua mãe cuidadosa e o calado pai. Deixou para trás o aconchego da casa da vó, a esperança do irmão de que ele também fosse trabalhar na serraria. Mais do que tudo, ele abandonou naquele dia a obrigação de tentar ser alguém que ele não era. Lembrou-se da praça, da passagem de ida e do ônibus. Lembrou-se da família, como um retrato, vista pela janela – todos olhando para ele. Ainda estava sentado, pensando, quando percebeu que já estava tão escuro dentro da sala quanto lá fora. Logo a secretária bateu na porta e era hora de ir embora, de novo.

 

(A peça Aldeotas foi escrita por Gero Camilo e está em cartaz no Tucarena, em São Paulo, até 30/8.)


Escrito por Anderson Vitorino às 20h05



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Anderson Vitorino, 29, apaixonado por cinema, iniciou-se na dramaturgia aos 13 anos num curso de teatro. Desde lá, desenvolveu enorme fascínio pelas histórias e imagens. Estudou cinema e aprofunda-se em direção, escrita de roteiro e textos. Escreveu e dirigiu o curta-metragem Jurema, Te Amo!, 2003. Atualmente cursa Letras na USP e ensaia o seu primeiro espetáculo em São Paulo "Te espero na última plataforma".

Contato pelo e-mail:
andervitorino@gmail.com

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