ENTREVISTA ANTON CORBIJN

(Março de 2008, por telefone para Anderson Vitorino/Daylight Films)

Quais razões pessoais o levaram a escolher Ian Curtis e a banda Joy Division como objetos do seu filme?

Na verdade o Joy Division não é um tema do meu filme, Ian Curtis sim. “Control” não é um filme sobre o Joy Division – isso tem que ficar bem claro. É uma história de amor sobre Ian Curtis, que veio a se tornar o vocalista da banda. O Joy Division faz parte da história, mas não é A história.

Eu me mudei da Holanda para a Inglaterra em 1979 porque ouvi as músicas do Joy Division e me encontrei e conversei com eles em Londres algumas vezes. Mais ou menos um ano depois, Ian Curtis morreu. Fiz um vídeo para a banda nos anos seguintes. Tudo isso voltou a mexer comigo, porque, de certa maneira, Ian Curtis mudou a minha vida. E talvez porque Ian cometeu suicídio, as fotos que eu tirei dele se tornaram muito conhecidas.

Eu ainda me sinto muito ligado a tudo que aconteceu. Na minha idade, eu estava com 50 anos quando comecei a fazer o filme, parece ser o momento apropriado para olhar para trás e depois para frente de novo. Então eu olhei para trás para saber o que estava fazendo da minha vida e descobri que ainda estava buscando por influências da minha adolescência. Foi o momento de parar com essa influência antiga e me abrir para novas. Logo, o filme é um adeus, é o último capítulo de toda aquela parte da minha vida. Foi muito importante fazer um filme que lida com isso e ao mesmo tempo é um novo capítulo para mim.

Que tipo de contato pessoal/profissional você teve com a banda?

Eu era jovem e queria fotografar pessoas que eu gostava. Então fui para Londres e me encontrei com a banda. Fizemos uma sessão de fotos que acabou ficando bastante famosa e significativa com o tempo, mas quando ficou pronta quase ninguém gostou. Essa foi a minha ligação direta com o Joy Division.

Em abril de 1980 eles me convidaram para ir até Manchester e fizemos novas fotos. Havia a sensação de que minhas fotografias combinavam muito com as músicas da banda e eu fui convidado também para fazer o videoclipe da música “Atmosphere” em 1988.

Por que escolheu o livro biográfico de Deborah Curtis (“Touching from a Distance”) para ser base do filme?

Os produtores adquiriram os direitos para transformar a história do livro de Debbie (viúva de Ian Curtis) em filme e me contrataram. Mas “Control” não é uma adaptação do livro, apesar dele ter servido como grande fonte de informação. Vários detalhes que estão no livro poderiam ser usados no filme, mas é claro que Debbie tem uma forma muito pessoal de ver os fatos por causa da situação em que estava envolvida e eu não queria fazer um filme sobre isso.

Então eu quis falar com Annik (jornalista belga que se tornou amante de Ian Curtis), com (o produtor e apresentador) Tony Wilson, com os integrantes do New Order, com a mãe de Ian, para saber qual é a história deles, de cada um. Porque em muitos momentos da vida de Ian, Debbie não estava presente e o filme é uma combinação de todas essas informações. E é claro que o livro de Debbie é parte disso.

Como foi a escolha e a preparação do elenco?

Foi tudo mais ou menos como em qualquer outro filme. Os atores estudam suas falas e tentam encontrar a melhor maneira de interpretar seus personagens. E como havia música envolvida eu pedi que eles aprendessem um pouco dos instrumentos e eles ficaram muito entusiasmados com isso. Eles não conseguiam parar de ensaiar e se tornaram tão bons que decidimos usa-los também como músicos no filme. Não tínhamos idéia que isso fosse acontecer, mas aconteceu e eles deixaram o filme ainda mais forte. No filme, os atores estão sempre tocando e cantando de verdade.

Sam Riley (ator inglês que interpreta Ian Curtis) foi contratado em janeiro (2006) e as filmagens começaram apenas em julho, portanto ele teve tempo para aprender movimentos, passos. Os ensaios para o filme começaram oficialmente em maio.

Control” é em preto-e-branco, assim como vários videoclipes que você dirigiu. Por que?

Eu gosto da fotografia monocromática, mas a principal razão do filme ser em preto e branco é por ser esse o meio de expressão perfeito para o assunto tratado. Além disso, a memória coletiva sobre Joy Division e sobre o período (passagem dos anos 70 para os 80) e as fotografias que fiz da banda são em preto e branco. E é impossível encontrar uma foto colorida de Ian Curtis aonde quer que você vá.

Você dirigiu videoclipes de grandes bandas de rock, fotografou diversas celebridades da música e do cinema e agora ingressou na direção cinematográfica. A sua carreira parece ser um cruzamento bem sucedido de diversas artes audiovisuais. Você concorda?

Quando eu era mais jovem, queria fazer parte do mundo da música. Nos anos 80 tudo o que eu fiz foi relacionado à música. Nos anos 90 e atualmente, eu fotografo pessoas não só ligadas à música, como diretores de cinema (Clint Eastwood), atores (De Niro), Nelson Mandela, William Burroughs, Frank Sinatra – muitas pessoas que eu queria conhecer. A música me abriu muitas portas e por isso foi tão importante pra mim, além de ser uma grande inspiração.

O Joy Division voltou a chamar a atenção da grande mídia no último ano (2007). Há o seu filme, também um documentário sobre a banda (“Joy Division”, de Grant Gee), livros e edições especiais dos álbuns. Em sua opinião a que se deve esse novo interesse?

Para mim, o filme (“Control”) foi catalisador dos lançamentos que você mencionou. Acredito que se não existisse o filme nada disso teria sido lançado ou relançado.

A banda ainda é uma referência?

Sim. Muitas bandas são influenciadas por Joy Division: Franz Ferdinand, Interpol, Arcade Fire, The Editors, The Killers. Inclusive o The Killers (banda de rock dos EUA) gravou uma música para a trilha sonora de “Control” – “Shadowplay”, cover da faixa de 1979 do joy Division. Isso mostra como a banda ainda é relevante para os jovens hoje.

A maior parte das cinebiografias tende a glorificar seus personagens e transforma a vida de cada um em algo extraordinário. Você parece fugir desse esquema. Você concorda?

Sim. “Control” não quer ser uma biografia. É um filme sobre pessoas, não sobre deuses ou estrelas do rock. É algo mais humano. E a vida não é como na revista “Hello” (publicação internacional equivalente à nacional “Caras”). As pessoas têm questões a resolver e enfrentar todos os dias.


Escrito por Anderson Vitorino às 12h01



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Anderson Vitorino, 29, apaixonado por cinema, iniciou-se na dramaturgia aos 13 anos num curso de teatro. Desde lá, desenvolveu enorme fascínio pelas histórias e imagens. Estudou cinema e aprofunda-se em direção, escrita de roteiro e textos. Escreveu e dirigiu o curta-metragem Jurema, Te Amo!, 2003. Atualmente cursa Letras na USP e ensaia o seu primeiro espetáculo em São Paulo "Te espero na última plataforma".

Contato pelo e-mail:
andervitorino@gmail.com

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