Entrevista concedida por e-mail para a Revista da 2001 Vídeo (nov/2006)



DUNCAN TUCKER
nasceu em Kansas City e, depois de se formar no ensino médio, não tinha certeza do que queria como profissão. Ele sabia que gostava de escrever e começou então a redigir várias pequenas histórias. Decidiu ganhar experiência de vida realizando os mais diversos trabalhos, como garoto de cabine em um barco e atendente em um café. Quando ficou amigo de uma mulher, que depois se revelou transexual, encontrou a inspiração para seu premiado filme de estréia, Transamérica. Tucker realizou antes um curta-metragem, The Mountain King (2000), parte de um projeto de temática gay (Boys to Men).

Como se envolveu com cinema? Você freqüentou alguma escola?

Eu não fui a nenhuma escola de cinema, o que eu às vezes considero a minha maior satisfação enquanto cineasta. Eu aprendi vendo filmes. Eu amava conversar com atores, ler vários livros e, finalmente, fazer cinema. O mais importante para mim é contar uma boa história e tirar dos atores interpretações novas, reais e surpreendentes.

Você disse: “a família de Bree não é a minha, mas a mãe dela é a minha mãe”. De que maneira a mãe da personagem se assemelha com a sua?

Quando eu tive em mãos a primeira versão do filme pronta, mostrei para meus irmãos e ambos disseram: “Você não pode mostrar isso para nossa mãe!”. Mas quando ela viu o filme, adorou e se sentiu bastante lisonjeada pelo retrato que a atriz Fionnula fez dela. Minha mãe e eu nos tornamos muito próximos, mas durante o meu crescimento ela não via fronteiras entre a vida dela e a de seus filhos. Ela costumava preencher todo o espaço com seus próprios sentimentos e simplesmente não conseguia entender quando alguém pensava ou sentia diferente dela.

Por que você escolheu uma atriz ao invés de um ator, e até mesmo ao invés de uma atriz transexual? Como Felicity Huffman conseguiu o papel?

Essa é uma pergunta freqüente e de alguma forma revela que muitas pessoas pensam que uma transexual feminina é na verdade um homem, enquanto elas são mulheres de verdade. E depois da terapia hormonal e cirurgia plástica, elas soam e se tornam ainda mais mulheres. São mais parecidas com as mães e irmãs do que com pais e irmãos. Quando eu encontrei e entrevistei transexuais femininas, fui surpreendido com várias que não se pareciam nada com homens usando vestidos. As transexuais mais masculinizadas, ou não tiveram sorte geneticamente – altas e duras ou gordas e troncudas --, ou estavam no início da transição, antes da terapia hormonal ter a chance de alterar a densidade dos músculos e os contornos do corpo e antes de uma cirurgia para tornar o rosto mais feminino (opção de muitas transexuais).

Eu percebi que, mesmo se eu tivesse sorte suficiente para contratar um grande ator masculino – Daniel Day Lewis, por exemplo –, ele ainda se pareceria com um homem usando um vestido e não como uma transexual. A não ser que ele passasse por uma plástica no rosto e fizesse dois anos de terapia hormonal antes das filmagens.
Escolher uma mulher para interpretar o papel foi de longe a mais honesta e realística escolha. De qualquer forma, eu queria honrar o caminho que minha personagem estava seguindo, e não mantê-la presa ao que estava deixando para trás.

Eu conheci o trabalho de Felicity no teatro, em Nova York, e achei genial. Oferecemos o papel, ela aceitou e interpretou Bree com muito humor e sensibilidade, sem sentimentalismos ou vaidade. Dias depois de terminarmos as filmagens, ela começou a gravar o primeiro episódio de uma nova série de TV: Desperate Housewives.

 Você pode nos contar um pouco sobre como Felicity criou a personagem? Qual foi sua interferência nesse processo?

Como em qualquer filme, tudo é uma colaboração. Meu roteiro, o talento de Felicity para interpretar, minha direção. Eu queria que Bree fosse uma mulher conservadora, que se esforçasse muito para se unir à sociedade. Eu sabia que Bree usaria camadas de roupa para se ocultar no início do filme. Bree ainda estaria dura e deselegante – não tão confortável com seu corpo como ela aprenderia estar um dia.

E mesmo assim ela já tem um grande senso de humor, de ironia. Ela não é uma vítima, é uma sobrevivente.

Felicity foi fantástica! Durante as filmagens, às vezes, ela agia de forma tão verdadeira e honesta – e ao mesmo tempo engraçada – que eu me surpreendia e estragava as tomadas com ataques de riso.

Como você trabalhou para evitar clichês e um ponto de vista estereotipado?

Realizando minha pesquisa, observando a vida de perto (ultrapasse as aparências e de alguma forma todos somos anormais) e dizendo a verdade.

O filme pode parecer um filme-de-estradaconvencional, mas os personagens se movem para um novo modelo de família ao final. Como você vê essas novas famílias formadas por pais gays ou transexuais?

As pessoas são muito mais parecidas do que diferentes. Eu não sei se já encontrei alguma família realmente “convencional”. Todo mundo tem alguma história fantástica, uma família maluca, e faz ajustes para se aceitar e, ao mesmo tempo, encontrar um amor. Algumas pessoas conservadoras ou medrosas acreditam que só há uma forma de família, aquela mostrada na televisão e nos filmes antigos.

Transamérica é um filme à moda antiga com personagens contemporâneos. Dizer “filme-de-estradaconvencional” é a mesma coisa que dizer “épico convencional”, visto que é nesse tipo de mito ou história antiga que os filmes-de-estradasão baseados. Na verdade, quando escrevi Transamérica, estava pensando muito mais na Odisséia (Homero) e em O Senhor dos Anéis (Tolkien) – que são dois “filmes-de-estrada – do que em filmes americanos.

De qualquer forma, Transamérica é um filme sobre família, esperança e amadurecimento. Mesmo contra sua vontade, Bree parte em uma viagem, estabelecida para ela por um “mentor”, e volta para casa mudada. O tesouro trazido de volta com ela é o próprio coração.

Transamérica carrega um forte grau de humanidade, sensibilidade e liberdade artística. Essas características são, normalmente, ligadas a um cinema independente. Alguns críticos têm afirmado que o cinema independente americano se transformou em uma indústria tão padronizada e repetitiva quanto Hollywood. O que você acha dessa opinião e como você vê esse cinema independente hoje?

Sinto muito, mas eu não posso comentar a respeito disso. Sempre existirão cineastas que seguirão suas próprias visões, tanto no cinema independente quanto em Hollywood. É verdade que os estúdios agregaram um segmento do cinema independente, criando suas próprias produtoras independentes, mas, todo ano, alguns bons filmes são feitos, milagrosamente, e isso é algo para ser considerado e perseguido.

Esse trabalho abriu portas para futuros filmes? Está trabalhando em algum projeto novo?

Tenho várias idéias, nas quais estou trabalhando atualmente, e uma delas estou escrevendo. Esse filme foi como encontrar um pote de ouro ou ganhar na loteria. A maioria das pessoas e lugares de Hollywood está interessada em mim agora. É fantástico! Eu acredito que somos um dos menores (e mais verdadeiramente “independentes”) filmes que já ganhou tantos prêmios, e fomos indicados a dois dos principais prêmios no Oscar®. Que ano!

No campo ético, a contemporaneidade é caracterizada pelo discurso de inclusão. Durante o século XX, mulheres e negros tiveram conquista sociais e políticas importantes. Atualmente, novas reivindicações estão em pauta, como a união civil entre pessoas do mesmo sexo. No entanto, transexuais ainda estão à margem das discussões públicas e continuam estranhos à sociedade. Como você vê essa questão?

No cinema, a maioria das minorias perpassa um caminho evolutivo em relação à forma como são representados. Primeiramente, como palhaços ou bufões – negros eram empregados, babás, estúpidos e bobos, os gays eram drag queens ou efeminados. Depois, como nobres vítimas da sociedade (O Sol é Para Todos, Meninos Não Choram, O Segredo de Brokeback Mountain). E, finalmente, como pessoas que, simplesmente, vivem e não têm suas histórias girando em torno do fato de serem negras, gays ou fazerem parte de qualquer outra “minoria”. Atores negros são escalados como principais em comédias românticas, aventuras, ficções científicas, filmes de investigação – e a raça não é assunto nesses filmes. Isso também pode estar começando a acontecer, apesar de lentamente, com os gays. Transexuais, em sua maioria, continuam retratados no estágio de “nobres vítimas”. Acredito que Transamérica seja o primeiro filme americano a ter um protagonista transexual que seja uma pessoa com esperanças, medos, sonhos e senso de humor – alguém com quem nos preocupamos e que segue em frente para criar sua própria história de família, alegria e amor.

 Ainda sobre a pergunta anterior: Bree tenta resolver sua dissociação interna de identificação de gênero através da operação de mudança de sexo. Enquanto observamos os conflitos emocionais dela, somos convidados a pensar sobre a identidade de cada ser humano perante as leis sociais. No caso de Bree, o processo é ainda mais tortuoso porque choca com essas leis, que ainda definem os papéis individuais de acordo com o sexo biológico. Apesar disso, Transamérica toca nesses assuntos sérios com leveza e humor.

Felicity diz que os transexuais são os heróis dela, porque não têm como se proteger de uma escolha: aceitar a si próprios e perder amigos e famílias, ou manter as pessoas próximas pelo preço de sua verdade interior.

E eu concordo com ela. Mas, de alguma forma, todos nós temos que virar heróis para crescer. Todos nós temos que aprender a sabedoria da auto-aceitação e do perdão. É por isso que acredito na universalidade da história contada em Transamérica – que agradou muitas pessoas inesperadamente. Mas é verdade, o caminho é bem mais longo e traiçoeiro para os transexuais do que para a maioria das outras pessoas.

Bree está, ao mesmo tempo, lutando para reafirmar sua individualidade e se encaixar num certo padrão de “normalidade”. Toby ainda permanece como um marginalizado, um estranho. Que tipo de contribuição emocional pôde ser tirada por eles desse encontro de diferentes trajetórias?

Bree é, no final das contas, uma adulta. Acredito que ela ajudará Toby a se recuperar do dano imposto a ele, e será um bom pai para o garoto, assim como aprendeu a ser um bom pai para si mesmo.

No início do filme, ambos os personagens são como crianças, competindo por espaço, domínio e posições. Ao final, Bree se transforma em Mulher, não somente na forma física. Ela compreende Toby e dá os primeiros passos para conquistar a confiança dele e oferecer o respeito que ele deseja. Na linguagem do filme: ela enxerga Toby.

O seu filme nos apresenta a uma América (EUA) distante dos centros urbanos, inconsciente de uma realidade exterior, cerceada por uma moral religiosa severa e dominada por sentimentos patrióticos. Como a escolha desse ambiente contribuiu para a construção e desenvolvimento dos personagens?

Eu quis apresentar meus personagens frente ao que se considera, de alguma forma, o coração mitológico dos EUA, e mostrar que ainda que se sintam como peixes fora da água, na verdade não são tão diferentes assim de qualquer outra pessoa.

Também, a verdade é que, para um filme pequeno e de baixo orçamento, é muito mais barato filmar em estradas, cidades e restaurantes menores. Não podíamos pagar um grande restaurante na periferia, nem um shopping center, rodovia ou parada de caminhão. Essa é a razão por que vários filmes de estrada pequenos se passam no interior remoto!






 
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