Entrevista concedida por e-mail para a Revista da 2001 Vídeo (mar/2007)



CAO HAMBURGER

O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias é a segunda experiência de Cao Hamburger na direção de longas-metragens. A primeira foi Castelo Rá-Tim-Bum, O Filme (1999). Na TV, o diretor foi responsável por sucessos como a premiada série infantil Castelo Rá-Tim-Bum (1995), para a TV Cultura, e pela direção de um episódio da série Cidade dos Homens (2004), para a TV Globo. Mais recentemente, foi responsável pela criação e direção geral da série Filhos do Carnaval (2006), com produção da O2 Filmes e da HBO, indicada para o prêmio Emmy. Antes dos longas, Hamburger dirigiu os curtas O Menino, a Favela e as Tampas de Panela (1995), o documentário Tietê (1993), as animações Caçada no Pantanal (1990), A Garota das Telas (1989) e Frankstein Punk (co-direção com Eliana Fonseca, de 1989).

 

O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias causou forte identificação com o público, incluindo aí pessoas que não costumam ver filmes nacionais. Algumas pessoas chegaram a comparar seu filme ao tipo de cinema que se faz na Argentina. Você consegue identificar causas dessa identificação do público e da comparação com a cinematografia do país vizinho?

Para mim, é uma comparação elogiosa, pois gosto do cinema que está sendo feito na Argentina, apesar de achar o filme extremamente brasileiro. O que talvez tenha despertado essa comparação é o fato de o nosso filme ser centrado nos personagens e na história que está sendo contada. Tudo no filme está a serviço da história.

 

Levar o período da ditadura ao cinema, mesmo que seja como pano de fundo, mexe em uma ferida ainda aberta de nosso país. Que papel o cinema pode exercer fazendo essa revisão dos anos de chumbo?

O filme fala de uma época muito marcante no imaginário brasileiro, uma espécie de "memória coletiva"  que nos marcou profundamente como povo e nação - como bem frisou Isabela Boscov em seu texto na revista “Veja”. É o auge da Guerra Fria no mundo, e o auge da contracultura. No Brasil não foi diferente. De um lado, a ditadura militar e sua ilusão de um Brasil grande, do milagre econômico, de slogans como "Esse é um país que vai pra frente", do medo do comunismo etc. De outro lado, o cenário cultural em efervescência, a miscigenação racial e cultural, característica nossa, correndo solta, a integração do país através da TV etc. E, no meio disso tudo, o futebol maravilhoso da seleção de 1970, com Pelé, Tostão e cia.

Em uma entrevista, você revelou que chegou a falar com Roman Polanski para que ele interpretasse o papel do judeu Schlomo. Pode contar um pouco sobre essa história e do seu trabalho com os atores?

Procurei trabalhar com atores que fizessem parte do universo do filme, especialmente nos papéis principais. Por isso escolhi o Michel Joelsas, o Germano Haiut e a Daniella Piepzics para os papéis de Mauro, Schlomo e Hannah. São três grandes atores, mas não eram profissionais, e que têm muito contato com a cultura judaica retratada no Bom Retiro daquela época. Outros atores em papéis secundários também foram escolhidos em associações, escolas e clubes da comunidade judaica. Assim, conseguimos passar uma verdade importante para o filme. Outros filmes brasileiros já tinham experimentado essa experiência. O primeiro chama-se Iracema, uma Transa Amazônica, de Orlando Senna e Jorge Bodansky, que utiliza pessoas, ou novos atores, da região onde o filme foi rodado. Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, é outro exemplo.

 

Além de você e de Bráulio Mantovani, o roteiro do filme teve outras colaborações. Quais as vantagens de escrever um roteiro a oito mãos? E quais as dificuldades nesse processo?

Escrevemos o argumento, Cláudio Galperin e eu. Cada um trouxe um pouco de sua infância e de sua imaginação, e montamos a história central e os personagens. O Cláudio escreveu os primeiros tratamentos. Chamei o Bráulio Mantovani e depois a Anna Muylaert para darem a forma final cinematográfica. Todos colaboraram de forma decisiva para o sucesso do roteiro, que a meu ver é a base sólida que o filme tem, trazendo não só idéias e experiências pessoais, como também consistência, ritmo etc.

Como se aproximou de obras voltadas para o público infanto-juvenil como o Castelo Rá-Tim-Bum? Foi uma opção pessoal?

Comecei em cinema fazendo animação de bonecos em curtas-metragens como Frankstein Punk e A Garota das Telas, entre outros. Isso, naturalmente, me aproximou do universo infanto-juvenil. Mas não foi uma escolha deliberada. 

A minissérie Filhos do Carnaval, co-produzida e exibida pela HBO Brasil, foi uma experiência pioneira na televisão nacional. Como foi o processo de construção da série? Como vê a força das séries de TV atualmente perante o cinema?

Gosto muito de fazer e ver TV. Mas TV de alta qualidade. Acho que a TV e o cinema estão cada vez mais próximos. Gosto quando a televisão e o cinema se comunicam. Em todos os sentidos.







 
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