JONATHAN DAYTON e VALERIE FARIS

Jonathan Dayton, 49 anos, e Valerie Faris, 48, são californianos, casados e têm três filhos. Eles começaram a criar e dirigir juntos com o programa da MTV norte-americana The Cutting Edge, em 1983. Eles continuaram a trabalhar com a linguagem televisiva, dirigindo clipes e documentários para bandas como REM, The Red Hot Chilli Peppers, Oasis e The Ramones. O casal ganhou diversos prêmios, se envolveu também com outro programa de comédia na HBO e, em 1998, criou a bem-sucedida produtora publicitária Bob Industries. No cinema, Jonathan e Valerie produziram dois filmes. Pequena Miss Sunshine é a estréia do casal na direção de longas-metragens.

 

HISTÓRIAS DE UMA KOMBI AMARELA
Leia entrevista com os diretores de Pequena Miss Sunshine concedida por telefone para a Revista da 2001 Vídeo

De onde veio a idéia original do filme?

Jonathan - A história se originou com o roteirista Michael Arndt. A maior parte é inventada, mas a família dele também teve uma kombi durante sua infância. Tudo o que acontece com a kombi do filme aconteceu na verdade com o carro da família do roteirista: a porta caiu, eles tinham que empurrar o veículo... É tudo baseado em eventos reais.

Valerie - Nós nos identificamos muito com a história da família e tivemos experiências parecidas enquanto crescíamos e viajávamos com nossas famílias. Nós acreditamos que o roteiro é um retrato real do que é uma família.

Arndt escreveu sozinho? Qual foi a colaboração de vocês?

V - Ele escreveu uma primeira versão e, quando lemos, simplesmente adoramos. Depois, durante os quatro anos da realização do filme, trabalhamos no roteiro junto com ele.

J - As mudanças que fizemos foram muito pequenas.

V - Solucionamos vários problemas na fase do roteiro, antes de filmar. Estávamos muito felizes com o roteiro durante as filmagens. Sempre amamos o roteiro. Foi a melhor coisa que lemos e, logo depois de ler, pensamos: temos que filmar isso. Foi como se tivesse sido escrito para nós!

O filme demorou vários anos para ser realizado. Ouvimos histórias sobre estúdios que recusaram o roteiro. Vocês sabem dizer por que foi difícil fazer Pequena Miss Sunshine?

V - Temos algumas teorias, mas acreditamos que isso aconteceu em parte porque o filme não tinha nenhuma “estrela” envolvida e os estúdios não conseguiam imaginar como comercializá-lo e vendê-lo.

J - Os grandes estúdios gostam de filmes nos quais pelo menos um ou dois grandes nomes estejam presentes para colocar no cartaz e, assim, comercializá-los. O nosso filme teve um orçamento baixo para os padrões e não podíamos pagar grandes estrelas. Tivemos sorte de conseguir esse elenco. Todos eles trabalharam com um salário reduzido porque acreditaram que o filme poderia ser muito bom.

Como conseguiram juntar tantos atores talentosos? Como foi dirigi-los?

V - A melhor coisa de quando se tem o dinheiro e uma data certa para começar um filme é que fica muito fácil conseguir um “sim” dos atores, porque o seu projeto está realmente acontecendo. Quando você tenta reunir atores, mas ainda não há nada certo sobre o filme, fica muito difícil escalar o elenco. Os atores se reuniram muito rápido para o nosso filme. O melhor de trabalhar com esse grupo foi que Pequena Miss Sunshine é um filme de elenco: os seis personagens estão juntos em quase todas as cenas. Então, uma vez que nós os juntamos para trabalhar como uma família, eles faziam cinco ou seis páginas do roteiro em seqüência. E isso era muito divertido para nós! A partir do momento em que concordávamos sobre o controle de cada um sobre seu papel, amávamos o que cada um deles trazia para seu personagem. Depois, apenas formatávamos as cenas. A energia de um elenco pode ser muito divertida.

J - Acredito que todos nós ficamos felizes por trabalharmos juntos. Steve Carell, por exemplo, fez parte do grupo de comédia Second City (famosa série cômica da TV norte-americana), no qual Alan Arkin atuou há uns 30 anos. Fazer o filme foi uma honra para Steve Carell porque Alan Arkin é um de seus “heróis”. Todos nós ficamos muito felizes!

Muitos filmes independentes são centrados em personagens que estão à margem da sociedade, fora dos padrões estabelecidos. Qual o limite para retratar tais personagens de forma mais real e não como meros estereótipos?

J - Bem, isso foi importante para nós. Esse foi mais um dos motivos pelos quais amamos o roteiro e também para a demora de realização do filme. A idéia era transformar a história em emoções e, assim, torná-la universal. O que é interessante é que, mesmo sendo sobre uma família muito americana, o tema do filme é universal. Todos sabem o que é fazer parte de uma família.

V - Sempre rejeitamos o rótulo de filme sobre uma família disfuncional porque eu acredito que isso já é uma forma de estereótipo. O filme é sobre uma família que não se dá muito bem, mas que funciona de certa maneira, caótica talvez, mas isso faz parte de como eles são. Tudo isso muda a definição e a forma de ver esse tipo de família. Mesmo sendo difícil amar a sua família às vezes, você continua amando. É sempre bom ser lembrado! E outra coisa que amamos no roteiro foi que o filme transmite uma sensação de revolta e desafio no final. Todos eles se juntam e desafiam a idéia de que devem se calar e se deixar serem julgados. Então, há um tipo de liberação, ao final, que sempre adoramos! Eles finalmente se dão conta de que o concurso não interessa tanto e que se importam mais com a filha do que com o resto todo e, já que ela está fazendo algo de que gosta, ela deveria ter esse direito!

Como é trabalhar entre marido e mulher?

J - Tenho muita sorte porque a realização de um filme é uma atividade muito difícil e sempre coletiva. Você tem a colaboração do diretor de fotografia, do elenco, do montador, do roteirista, e poder contar com uma parceria ajuda a realizar bem todas essas colaborações. É engraçado porque somos casados, temos três filhos – nossa vida é bem cheia –, mas eu acredito que o que nos ajuda é que ambos amamos nosso trabalho, amamos ter uma família e então conseguimos dividir todas essas coisas. Mas eu não recomendo para qualquer um!

Vocês já eram reconhecidos pelo trabalho de direção de videoclipes e peças publicitárias. Como essa experiência anterior influenciou na estréia de vocês na ficção com Pequena Miss Sunshine?

V - O que eu sinto, realmente, é que trabalhamos juntos há muito tempo e já lidamos com várias produções e equipes. Tudo isso nos fez sentir muito à vontade no set de filmagem, possibilitando que pudéssemos nos focar em algo novo para nós: a interpretação. A atuação era algo realmente novo e excitante para nós e por isso centramos nosso foco aí. A música é algo que sempre usamos muito para dar sensação, sentimento a um filme. Tínhamos músicas fantásticas, por exemplo, Till the End of Time (DeVotchka), e isso nos ajudou a dar um tom para o filme.

J - Estávamos muito instigados a fazer algo diferente e não um videoclipe de uma hora e meia. Não queríamos algo apenas que tivesse estilo!

Como o reconhecimento que vocês tiveram vai afetar os projetos futuros? Vocês já têm algo em mente?

J - Sim, temos! Ficamos muito felizes por ter o reconhecimento da crítica e também do público, bem como uma resposta nas bilheterias. Assim, vamos fazer nosso segundo filme e será bem mais fácil. Temos três projetos em que estamos trabalhando. Um deles é baseado em um livro de Tom Perrotta, autor de Criancinhas, o romance em que se baseou o filme Pecados Íntimos.

V - É sobre uma professora de educação sexual no ensino médio que diz algo na sala de aula que desagrada a igreja local. E assim se inicia uma briga e ela é forçada a pregar a abstinência. É meio parecido com Pequena Miss Sunshine, no sentido em que é engraçado, mas toca em assuntos interessantes nos quais pensamos muito atualmente.

Vocês têm diretores ou filmes favoritos? O que despertou em vocês a vontade de fazer filmes?

V - Sim, sim. Muitos diretores! Desde cedo nós dois fomos muito inspirados por documentários. Gostávamos especialmente de uma série de TV dos anos 70, An American Family, sobre uma família americana, que durou cerca de um ano e durante esse período acompanhou uma família diariamente, estudando o relacionamento entre seus membros. Era sensacional e emocionante! Assistimos à série enquanto crescíamos e acredito que fomos bastante inspirados por ela.

J - Também amamos os filmes de Billy Wilder e de Hal Ashby.

V - É verdade! Pensamos muito em Hal Ashby enquanto fazíamos Pequena Miss Sunshine.

J - Filmes como Amargo Regresso, Shampoo, Ensina-me a Viver e Muito Além do Jardim.

São diretores que equilibram drama e comédia de forma muito eficiente.

V - Exatamente! Esse é um elemento que nos interessa muito e sempre estará presente em nossos filmes. Outra coisa que eu poderia dizer depois de fazer esse filme é que adoramos trabalhar em um “esquema” pequeno, evitando uma maquinaria muito grande em volta da gente. É muito bom não ter muita pressão, se sentir livre e fazer as coisas de um jeito próprio.







 
Voltar para o blog